OPINIÃO DA FOLHA
Pelo emprego
Fosse o esvaziamento do Lago Igapó o único problema de Londrina fato bastante citado na entrevista deste jornal com o prefeito Nedson Micheleti, domingo e a cidade poderia considerar-se privilegiada, mas nos últimos tempos a violência passou a ser a maior preocupação. Esta não é uma questão de responsabilidade direta do Poder Público municipal, mas tem origem na situação de enorme contingente de pessoas sem emprego.
Antes de tudo há que louvar a gestão do prefeito, que conseguiu sanear as finanças do município e impor moralidade e ordem interna, depois do trauma sofrido pela população ante os episódios que marcaram o governo passado. Mais que isso, Nedson prevê uma disponibilidade de R$ 20 milhões em caixa, em 2002, para reordenar a funcionalidade de serviços e sistemas e melhorar o aspecto urbano da cidade.
O problema mais grave, afeto à prefeitura, é o dos assentamentos da periferia, ocupados por milhares de famílias que vieram de outras cidades ou que foram se miserabilizando aqui mesmo, pela falta de emprego e de assistência. Além do drama social que representam em si mesmos, esses núcleos de desempregados constituem área fértil para indução à delinquência, sobretudo os ataques contra o patrimônio.
O prefeito terá que debruçar-se sobre esta questão, que não poderá ser resolvida do dia para a noite e exige também a participação da comunidade. Não há como dissociar roubos e assaltos da situação calamitosa dessa gente marginalizada e faminta, mas a questão não é apenas a garantia de segurança comunitária e sim, antes que tudo, a condição desumana em que vivem esses miseráveis.
Atentados contra o patrimônio alheio, a maior parte de pequena monta mas frequentes e perigosos como os assaltos a passageiros e a caixas dos ônibus urbanos e os roubos a residências e a casas comerciais á estão diretamente relacionados com a fome, que é a pior das companheiras.
O problema desse tipo de violência se resolve com o emprego, e se a comunidade quer livrar-se dos riscos da violência precisa dar emprego a essa população desassistida e que tende a enveredar para a apropriação violenta de bens alheios. São os denominados crimes famélicos, que pela lei moral são tipificados como legítima defesa da vida, porque sobreviver é um direito que se sobrepõe a todos os demais.
A vida é sempre mais valiosa que o patrimônio, não obstante para salvá-la tenham ocorrido atentados contra a vida de outrem, e então a situação converte-se no caos e numa verdadeira luta de classes: a dos que não têm contra os que têm, e destes contra aqueles, também em legítima defesa.
O prefeito de Londrina, que emerge do ventre de um partido de linha popular e que visa sobretudo a defesa dos excluídos, tem um desafio pela frente, que é o destas populações carentes e que assumem grande proporção na cidade. Originado da macro-política econômica do governo federal, o problema agora é de todos, e a sociedade não pode omitir-se. Mas precisa ser induzida, o que ocorre pela via de lideranças fortes, e a mais disponível pelas comunidades repousa na figura do prefeito.
Só pela solução do emprego será possível o soerguimento desses contingentes humanos afundados na miséria, e o emprego quem o tem não é o Poder Público mas a sociedade. Deve então o chefe do governo municipal ser o indutor de uma campanha, acima de tudo humanitária, para absorção dessas pessoas carentes em postos de trabalho, pouco importando, no caso, requisitos de qualificação profissional.
Quarenta anos atrás a nação inteira mobilizou-se para receber candangos os trabalhadores das obras de construção de Brasília que, ao final, resultaram desempregados e Londrina também contribuiu com sua cota. Não é outro o caminho agora, e será utopia e irresponsabilidade imaginar que pelotões de policiamento resolvam o problema. Nem todo o exército nacional e seus canhões o resolveriam.
A melhor política de segurança é a do emprego, e se a sociedade deseja mesmo viver segura, tem de abandonar a cômoda posição de apenas clamar por mais polícia e policiamento é um dever do Estado mas dar sua parcela de efetiva cooperação. Se a sociedade elegeu o seu prefeito, então o aceitou como líder, e cabe a ele mobilizar os cidadãos para esta cruzada do emprego. Fora disso será adiar o problema, até que a situação fique incontrolável.





