Greve e prejuízo




Nesta greve das universidades não há inocentes. De um lado a imprevidência do governo estadual em permitir que a situação chegasse ao ponto que chegou, e de outro a intransigência dos grevistas em manter uma paralisação que já dura quatro meses. O cancelamento, pelo governo, da reunião com os comandos da greve que se realizaria hoje, não altera a situação, porque de há muito não havia diálogo produtivo. O governo não teria mais nada a dizer senão que a solução só poderá ocorrer em abril, tempo para reestruturar o sistema de cargos e salários e mudar a proposta orçamentária, o que tem de ser aprovado pela Assembléia Legislativa, atualmente em recesso. E os comandos já demonstraram que não desejam voltar ao trabalho.
Agora tudo o que ocorre fica por conta dos pretextos. O governo alega que suspendeu a reunião porque os comandos ameaçavam, paralelamente, fazer uma manifestação pública em Curitiba. Um melindre governamental, como se mais um protesto fosse pior para a imagem do governo que a própria greve. De outra parte, legal que seja, soa inoportuno fazer um protesto no momento de uma reunião de negociação.
O que já está ocorrendo é uma disputa de cão e gato, mas o bom senso recomenda que os comandos liberem os grevistas, a maioria já em clima de exaustão. O certo é que meia dúzia de líderes sindicalistas mantém sob controle os professores e servidores em greve. Ontem a assembléia da classe diminuiu o porcentual do aumento antes reivindicado, mas ainda não é o fim da greve. Ficar parado com os salários em dia é cômodo.
E enquanto isso ocorre, os prejuízos se avolumam. São quase 38 mil universitários sem aulas, correndo o risco de perder o ano escolar; vestibular não realizado; o Hospital Universitário de Londrina funcionando abaixo do nivel de atendimento, com prejuízo para os doentes, pois se trata de um centro de saúde que atende sobretudo a carentes; quatro cursos que estavam em processo de reconhecimento, na Universidade de Londrina (desenho industrial, engenharia elétrica, arquivologia e artes cênicas) foram suspensos; 154 projetos de extensão estão interrompidos; e alunos não estão recebendo os recursos da bolsa de extensão.
Houve perda com a suspensão do vestibular, pois todo o trabalho administrativo de preparação das provas ficou inutilizado, assim como o material de consumo. Há ainda a possibilidade de as universidades não participarem do Provão em 2002, pois a última data de inscrição dos alunos é 22 de março, e até lá eles não terão concluído o penúltimo ano, interrompido em setembro com a greve.
Também está suspensa a produção do Laboratório de Medicamentos da UEL, que teria de produzir até março 18.720.000 de comprimidos para a Fundação para o Remédio Popular, do governo paulista, mas só produziu até agora uma terça-parte e poderá perder o contrato e ficar impossibilitado de participar de novas licitações. Afora isso, a economia das cidades – Londrina, Maringá e Cascavel, cujas universidades estão paradas – foi bastante abalada pela suspensão dos vestibulares, que dinamizam comércio e serviços.
É certo que o governo estadual tem se preocupado pouco com as universidades públicas do interior e com o baixo ganho dos professores e servidores, e, mais que isso, tem dado pouca atenção aos problemas fora do círculo da Capital. No caso de Londrina, isso se deve também à inexpressiva representatividade parlamentar do município. Na presente greve, os prefeitos das três cidades também não se mobilizaram, parecendo apenas solidários com os grevistas e não com o interesse dos alunos e das próprias universidades.
Com tudo isso, não há solução mais equilibrada, no momento, do que o retorno ao trabalho, sem prejuízo das negociações e da pressão sobre o governo. Embora a época seja de naturais férias escolares, há que recuperar o ano letivo do estudantado, cuidar da manutenção do campus e de restabelecer – caso de Londrina – todos os serviços acima relacionados.

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