Supostamente inofensivo pela irracionalidade que a natureza lhe deu, um felino está sendo responsabilizado pelo drama de parte da população de Santa Izabel do Ivaí, no Noroeste do Paraná, onde um surto de toxoplasmose deixa doente dezenas de pessoas. A espécie, do sexo feminino, com absoluta certeza jamais imaginou que seu instinto natural, de comer e evacuar onde e a que hora o organismo determine, pudesse adoecer tantas pessoas. Mimi, Fofinha, Rajadinha ou qualquer que seja o seu nome, a gata não planejou um ataque contra a população ou o poder público municipal, evacuando justamente em locais impróprios, no caminho de enxurradas que pudessem levar seus dejetos até um reservatório de água para abastecimento da população. Também jamais agiu inconscientemente, sem vinslumbrar riscos para quem consome aquela água.
O surto detectado em Santa Izabel do Ivaí é, pois, consequência de outra espécie de animal. Ao contrário da assustada gata que foi inclusive fotografada nas proximidades do reservatório, os culpados têm apenas duas patas, pensam, têm a capacidade de medir efeitos negativos de um incidente como este – provocada pela suposta Mimi, Fofinha ou Rajadinha – e, sobretudo, dispõem de estudos e ferramentas para construir abastecedouros protegidos de escoamentos que passam por onde a amiga gata evacua.
Sim, evidente que a gata, neste momento caçada como uma perigosa comparsa do terrorista que atormenta os EUA e o mundo, Osama bin Laden, traz no seu organismo os elementos que disseminam a doença entre os humanos. Deve, portanto, ser recolhida e, se possível, tratada. Esse procedimento é o mínimo que agora deve ser feito. Mas caçado este felino, outros virão e, da mesma forma, evacuarão na rota da enxurrada que leva ao abastecedouro. E a história se repetirá, com riscos de outro surto e de gastos que poderiam ser evitados caso os cuidados tivessem sido tomados para evitar este tipo de acontecimento. Mesmo sem os dejetos da circunstancial culpada, que de acordo com o que a natureza lhe permite caminhe pelas redondezas acuada, sem saber por que a perseguem, outros dejetos, tão perigosos para a saúde do homem quanto ao feito pela felina, sigam em direção ao reservatório durante cada período de chuvas.
O que, no mínimo, se exige das autoridades responsáveis pela saúde da população, sejam elas municipal, estadual ou federal – mas todos, ao que se sabe, de duas patas –, é que os moradores de Santa Izabel do Ivaí e outros inúmeros habitantes de diferentes localidades brasileiras que correm o mesmo risco, é que a questão do saneamento básico seja tratada com o respeito que o tema exige. Recursos da engenharia, a princípio, são suficientes para a construção de sistemas de abastecimentos baratos e seguros. Mas para que a visão de obra pública seja adaptada à coerência, e a sua execução seja fora da linha de risco de uma enxurrada, onde uma gata evacua, é preciso determinação política. Essas características, de ser determinado e comprometido com a população, a culpada de quatro patas não tem. Cabe, portanto, ao homem mostrar que, mais do que ser um animal de duas patas, é um ser que pensa e, por pensar, é responsável.

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