Os juros




A intervenção do presidente da República para que os Estados reduzam o ICMS sobre a gasolina, a fim de que o produto atinja a baixa que o governo deseja para o consumidor, surtiu efeito, porque todas as unidades da Federação aceitaram a redução. O Paraná vai diminuir em 8% a base de cálculo do imposto. A providência presidencial, tomada no ano final de mandato, tem visível objetivo eleitoreiro, mas demonstra que funciona quando há vontade política.
Mas se o governo tomou uma atitude com relação ao combustível, não se compreende que mantenha alta a política de juros dos bancos e do sistema financeiro em geral, que muito mais do que o preço da gasolina são os definidores do crescimento econômico ou da estagnação do País. É o alto custo do dinheiro que vem freando o desenvolvimento e gerando retração e desemprego, no Brasil.
Ontem este jornal mostrou que a taxa do cheque especial atingiu a exorbitância de 178% ao ano, em 2001, e nos empréstimos pessoais chegou a 88%. Uma nação com ambição de desenvolver-se e que tem suficiente potencial para isso não poderá realizar grandes sonhos com o preço do dinheiro a estas alturas. A moeda deve ser um meio e não um fim em si mesma.
É a própria política do Banco Central que vem permitindo e até estimulando a prática de juros altos, à guiza de conter o consumismo e a inflação. Mas o que ocorre com esta política vesga é a queda do crescimento econômico, pois a diminuição do consumo leva à inibição da produção e desestimula a ampliação dos negócios, com todos os males daí decorrentes. É a reação negativa em cascata, porque com pouca moeda circulando não há desenvolvimento, em consequência não há emprego e consumo, e sem este as fábricas param e o resultado é mais desemprego, assim realimentando a roda, uma coisa puxando a outra.
A péssima situação da Argentina, de que o presidente Fernando Henrique chegou a valer-se no ínicio para fazer comparações com o Brasil, não deve servir de contrapeso e sim de advertência. Talvez pela arrogância do passado os argentinos agora pagam um preço alto, mas a crise do vizinho país, no momento, é de ordem política e sobretudo de grandes desentendimentos na esfera do poder. A Argentina é um país de sólida infra-estrutura de produção e uma nação rica em tradições e que tem conhecimento do que significa bem-estar social, porque já viveu seus dias melhores. Estes são valores que nunca se perdem, sendo portanto impossível que o povo caia na miserabilidade. A manifestação do povo nas ruas, com panelaços e mesmo atos de violência, mostra o inconformismo dos cidadãos e uma certa marca de politização.
No caso brasileiro, mesmo que fosse uma política populista de final de mandato – porém ela é muito mais que isso – o presidente FHC faria um grande bem à nação se resolvesse intervir também na questão dos juros bancários. Seria uma medida heróica, destas que marcam os estadistas. Mexer com os bancos é o desafio que o Presidente ainda não teve a coragem de enfrentar.

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