OPINIÃO DA FOLHA - Todos pagam por poucos
Longe do Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva põe em risco, mais uma vez, a já conflituosa relação com algumas instituições e também com a iniciativa privada. Embora algumas investigações de casos pontuais tenham levado a conclusões sintomáticas, é temerário um presidente da República afirmar, principalmente fora de seu território, como o fez na terça-feira, que o crime organizado no Brasil está infiltrado na Justiça, na política, nas empresas e na sociedade civil em geral.
A afirmação foi feita durante uma entrevista coletiva a jornalistas de diferentes países. Na íntegra, a declaração do presidente é esta: ''Nós sabemos que no Brasil há uma parte do crime organizado ligada a vários setores da sociedade. O crime organizado é mais difícil de combater porque tem o seu braço político, o seu braço judiciário, o seu braço empresário, o seu braço da sociedade civil''. Quanto a uma solução para eliminar de vez com este problema, apenas disse que ''o Estado tem de ser duro''.
A questão não é de fácil solução. Sabe-se que em determinadas ocorrências pode haver a participação de pessoas de diferentes procedências, pois o caráter não está vinculado à profissão que elas exercem e nem aos setores que elas representam. Uma quadrilha por ter um integrante bancário, outro funcionário público, um terceiro empresário e um quarto que seja juiz, ou político, ou assessor direto da própria presidência da República. Isso não implica dizer que o gerente de banco saiba que seu funcionário integra uma quadrilha. Também que o chefe da repartição pública tenha conhecimento que aquele servidor tem parte com bandidos. Muito menos o diretor do Fórum, o presidente da casa de leis ou o responsável pelos recursos humanos do Palácio.
No entanto, da forma como é posto pelo presidente, a contaminação da bandidagem em instituições que deveriam merecer respeito está alastrada e tem a característica de um poder paralelo. Do tipo, olha, os bandidos estão por aí, em todos os lugares e mandam mesmo. Portanto, não confie mais na Justiça, na política, nos empresários e na sociedade civil. Dito assim, o País fica ameaçado de uma neurose coletiva de duas vias. Você, cidadão que não é bandido, passa a olhar o seu vizinho como um bandido. Da mesma forma, o seu vizinho desconfiará se você não é um quadrilheiro. Isso na sociedade civil, pois todos passam a ser suspeitos. Imagine o leitor na política, no empresariado e, principalmente, na Justiça.
O quadro torna-se mais grave ainda quando quem faz o alerta é o mandatário do país. E o faz de um jeito que parece ser ele uma vítima pessoal da bandidagem, quando a versão deveria ser de preocupação com a moralização das instituições, visando banir corruptos que, admite-se, estão aqui ou ali, trabalhando no meio de uma multidão de pessoas honestas e éticas.
Afirmar que o Estado tem de agir com dureza não basta. O certo seria dizer que devido a ocorrências com envolvimentos de determinados políticos, funcionários do judiciário, empresários e cidadãos, o governo faz uso de uma medida provisória dura, para combater a bandidagem.





