OPINIÃO DA FOLHA - Quem quer copiar FHC?
Os quatro candidatos mais cotados à sucessão de Fernando Henrique Cardoso ainda não ofereceram ao eleitor informações que sinalizem, claramente, as suas políticas econômicas. Lula, Serra, Ciro Gomes e Garotinho têm sido lacônicos e imprecisos quando falam do calcanhar-de-aquiles dos seus programas de governo: a administração da maior economia da América do Sul.
Nos pronunciamentos de pré-campanha dos candidatos, não têm faltado críticas à política econômica de FHC, principalmente no que toca a juros altos, economia desaquecida, aumento do desemprego e explosão da dívida pública. Apesar de ficar implícito que não pretendem seguir os passos do antecessor, nenhum dos bem cotados à Presidência, até agora, dissecou um plano de governo que, no entendimento de suas equipes e partidos, seja capaz de tirar o País do declínio econômico em que o Plano Real nos meteu. Nem Lula que, na segunda-feira divulgou a sua cartilha anticrise, foi claro nos caminhos que planeja trilhar para atingir as metas que traçou.
Falta o compromisso declarado e objetivo do que fazer, por exemplo, com a dívida pública. Essa conta foi multiplicada por dez nos anos tucanos de gestão federal. Em junho, a fatura atingiu marca recorde: R$ 653 bilhões. Até setembro próximo, às portas das eleições, as projeções indicam que baterá a marca de R$ 750 bilhões. É mais do que a metade de tudo o que o País produz em um ano inteiro, o chamado Produto Interno Bruto (PIB). Uma dívida gigante e herança maldita, se for paga tal qual foi contratada pelo gerente da crise, Fernando Henrique.
O que os presidenciáveis precisam dizer o quanto antes, e espera-se que o façam quando levarem à TV os seus conteúdos programáticos de governo a partir do dia 20 de agosto, é se o Brasil continuará refém dos mercados mundiais. Quanto à taxa básica de juros, esperamos respostas. Precisamos saber se a Selic continuará na estratosfera, a 18% ao ano, atraindo para o País o capital especulativo da pior espécie, que debanda ante qualquer indício de ''instabilidade'', tornando o mercado ''volátil'' e o câmbio ''estressado''.
Ou o novo governo pretende encarar de frente os agiotas internacionais, recusando-se a assumir a fatura de FHC e negociando o pagamento da dívida a juros suportáveis, que permitam a retomada do aquecimento da produção nacional? Nesse caso, o dinheiro esperto dos especuladores vai sumir como fumaça. A pergunta é: nesse período de transição, o futuro presidente assume perante o eleitor o ônus de administrar com mãos de ferro o orçamento público e com um plano competente a balança comercial?
Sem rodeios, o futuro presidente deve nos dizer se o País vai, afinal, trocar especuladores da burguesia financeira internacional por investidores de verdade, do tipo que ergue fábricas, abre empregos e paga impostos. Se tem a coragem de dispensar o dinheiro de curto prazo que traz a ilusão do equilíbrio financeiro. Se está disposto a carrear recursos para a produção, voltando-se para os pequenos e médios. Ou se o Brasil continuará nas mãos de meia dúzia de ''operadores' dos mercados financeiros que se locupletam às custas da miséria de eternos emergentes. São essas as respostas que devem rechear os discursos de campanha.





