Se há uma coisa que revolta os cidadãos, esta é da negligência do poder público com a merenda escolar. Notícia deste jornal, ontem, certamente indignou a todos a denúncia de que os alunos da Escola Estadual Cassio Leite Machado, situada em bairro pobre de Londrina, estão há dois meses comendo somente macarrão e algumas bolachas na hora da merenda. O diretor do estabelecimento afirma que o problema começou no ano passado, quando as escolas estaduais passaram a receber os mantimentos da merenda por meio das secretarias municipais de Educação. Vê-se que, mais uma vez, está presente o descompasso entre poderes, com uma verba que é federal, uma escola estadual e o alimento municipal. Porque o dinheiro para a alimentação vem do Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação, é destinado a um estabelecimento regido pelo Estado e com a Prefeitura encarregada de ir ao mercado comprar a comida. Em dado momento uma das pontas desse sistema triangular falha e quem paga são as 348 crianças mal nutridas, da 5 a 8 séries. Um descalabro!
A desculpa oficial para esse descaso é que houve problema de licitação, uma das marcas registradas da burocracia incompetente, porém mais que isso, uma falta de resolução ou eventualmente uma inverdade, porque 60 dias de merenda rala foram mais que suficientes para corrigir uma questão licitatória. E mais se disse oficialmente: que no caso dos legumes que faltam, o responsável é o entregador, que por ser novo não acertou o rumo da escola. Imagina-se que rodou pelo bairro exatos dois meses e não localizou o endereço. Nesses dois meses o diretor confirma ter buscado várias vezes uma solução para o impasse e viu-se obrigado a dispensar alunos mais cedo, para que se alimentassem em casa, isso até onde as famílias tinham condição. Porque todos sabem que as crianças pobres fazem da merenda a única refeição do dia, e também se sabe que muitas delas são atraídas para a escola tão somente por causa do alimento que irão receber.
Alunos ouvidos por este jornal declararam que não conseguem concentrar-se nas aulas se estão com fome, mas o problema não é apenas essa desconcentração e sim a subnutrição em si, afetando crianças em formação e desenvolvimento físico e que serão os brasileiros que terão de cuidar do Brasil nos anos vindouros. Num país com sobra de produção de alimentos não se concebe a martirização dessas crianças por negligência de gente adulta que comanda serviços públicos. Não há explicação convincente para essa irresponsabilidade, que caracteriza grave delito, passível de punição se leis ainda têm validade neste país.

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