OPINIÃO DA FOLHA - Prova dos nove
De última hora, o governo federal mudou o local onde anunciaria ontem o Plano Nacional de Reforma Agrária, numa decisão estratégica. Receber os integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) no Palácio do Planalto, onde o encontro de Lula da Silva com os membros do Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo ocorreria às 11 horas, poderia resultar em tumulto caso as expectativas dos trabalhadores que integram este organismo e fazem parte da Marcha a Brasília não fossem atendidas pelo pacote governamental.
Assim, fez-se o inverso. Lula da Silva foi até o local onde os integrantes do MST estavam acampados, no Parque da Cidade. ''Ou ele vem aqui, ou vai todo mundo para o Palácio do Planalto'', ameaçou de manhã um dos coordenadores do MST, que no momento comandava um grupo de cerca de três mil pessoas.
Mas ainda antes do anúncio, as evidências e as preocupações eram de uma tendência acentuada para os sem-terra, eis que durante a sua elaboração o descontentamento dos proprietários de terras foi latente e não por poucas vezes. A representação petista no grupo nomeado pelo governo federal para elaborar o plano é acusada de dar pouco ou nenhum espaço aos ruralistas nesta etapa.
Mas não é bem assim. No outro lado os discursos também são em tom de ameaças, conforme se viu há pouco na afirmação de um coordenador dos sem-terra. O que ocorre é que as expectativas, principalmente dos líderes dos trabalhadores rurais, eram de uma solução imediata do problema tão logo o governo de Lula da Silva esquentasse as cadeiras do Planalto e dos prédios da Esplanada dos Ministérios.
Questão complexa como esta, no entanto, demanda tempo. Até para evitar que um plano insuficientemente debatido e consequentemente imaturo fosse oferecido. Da parte dos proprietários rurais, também havia uma expectativa, se não plenamente positiva, ao menos ao ponto de permitir que o clima de guerra fosse deitado por terra. Não há como trabalhar sob tensão.
Assim, nem uma parte nem outra, quase onze meses após a posse, pode se aquietar ainda. O plano lançado ontem vai gerar, com certeza, descontentamentos e euforias de ambas as partes. O processo de discussão do problema foi falho e por mais que o governo diga como fez o presidente do PT, José Dirceu, que a reforma agrária que se apresenta é para garantir ''a regularização fundiária do País'' , ainda restarão dúvidas e desconfianças.





