No momento em que se anuncia uma nova restauração do Cine-Teatro Ouro Verde – que começa nestes dias e durará seis meses – vale rememorar duas epopéias que marcaram a história desse rico patrimônio de Londrina. A primeira foi a sua idealização e construção, 50 anos atrás; a segunda, a sua preservação num instante em que, 26 anos depois, o imóvel corria o risco de ser vendido para dar lugar a uma agência bancária. Numa sequência de lances que encontraram os homens certos nas posições certas e em horas certas, o Ouro Verde foi salvo em tempo e transformado em bem público, sob a administração da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
A construção do arrojado edifício, destinado a um cinema nos tempos em que ainda se amarrava os cavalos nas proximidades, partiu do idealismo e do arrojo do pioneiro Celso Garcia Cid, que desejava para os moradores da florescente cidade não apenas progresso material mas também um lugar de luxo para a diversão. Vilanova Artigas era então o mais renomado arquiteto brasileiro, e foi a ele que Garcia recorreu, para encomendar o projeto – ainda hoje de linhas avançadas, externa e internamente. Durante muito tempo o Cine Ouro Verde ostentou o título de cinema mais confortável e luxuoso do Brasil. Mas com o advento da modernidade que era a televisão, os cinemas em todo o País foram perdendo público e encerrando atividades.
O Ouro Verde então foi posto à venda. Um banco apresentou-se como comprador, para transformar a casa em mais uma de suas agências. Foi quando este Jornal interferiu decisivamente para impedir que tal ocorresse e causasse uma irreparável perda para a vida cultural da cidade. Oscar Alves era reitor da Universidade de Londrina e Ney Braga ministro da Educação. O então diretor de Redação da Folha iniciou uma mobilização para que a UEL, via governo, adquirisse o imóvel e o salvasse da extinção como casa de espetáculos.
A idéia foi passada ao jornalista Cleto de Assis – assessor de imprensa da Universidade e também redator deste jornal – para que a levasse ao reitor e este ao ministro. O assessor jurídico da UEL, José Hosken de Novaes, deu parecer favorável ao negócio e intercedeu junto aos proprietários do imóvel. Ney, consultado, deu a Oscar Alves o imediato sinal de concordância, dispondo-se a entrar com metade do valor se o governo do Estado – sob o comando de Jaime Canet e amigo muito próximo do ministro – concordasse em entrar com o restante. O valor do imóvel era 10 milhões de cruzeiros. Aconteceu então um episódio político interessante: Ney pediu a Canet que apenas concordasse, garantindo-lhe que o pagamento correspondente ao Estado ele mesmo faria como próximo governador, pois a eleição não estava distante e ele era candidato. E assim como se falou aconteceu. Ney Braga, como ministro e como governador, viria a ser o pagador das duas partes. O patrimônio foi preservado. Sem o Cine-Teatro Ouro Verde a atividade cultural em Londrina não teria evoluído.

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