OPINIÃO DA FOLHA - Os sócios do Brasil
É só o dólar entrar em cirandas de alta, como nos últimos dias, para a imprensa passar a divulgar diariamente o montante que o governo federal oferta na tentativa de conter a escalada da moeda norte-americana. Só nesta quarta-feira, uma verdadeira fortuna foi queimada na queda-de-braço com o mercado: US$ 250 milhões. Nos dias anteriores, 'pequenas' boladas de US$ 50 milhões, US$ 100 milhões, entraram na roda da especulação. Tem sido sempre assim. A cotação dispara e o governo, através do BC, aumenta a venda de dólares para segurar o preço.
Uma pergunta, no entanto, intriga os mais curiosos. Afinal, essas somas gigantescas servem a quê? Quem compra, a um câmbio tão astronômico, os dólares que o Banco Central vende em momentos de pânico? Os grandes compradores de dólares no País deveriam ser o Banco Central que precisa da moeda para pagar a dívida pública, a juros de arrepiar e a Petrobras. Também, claro, as empresas importadoras, que teriam elevado a demanda por dólares no final de julho para pagar dívidas no exterior diante do fechamento das linhas de crédito internacionais.
Mas a corrida desesperada e súbita por 'verdinhas' dos últimos dias certamente foi desencadeada por outros ''agentes'' do mercado, hábeis em atacar o real em momentos estratégicos quando sabem, por exemplo, que haverá procura maior por moeda forte e aproveitam a ocasião para entrar no mercado forçando altas exageradas. O que fazer para conter a crise? Emprestar dinheiro de emergência recorrendo ao Fundo Monetário Internacional, como faz o Brasil nesse exato momento para saciar o apetite dos tubarões? A cada novo ''acordo'' com o FMI, os brasileiros tomam emprestado verdadeiras fábulas que serão pagas às custas de juros e impostos altíssimos.
Sabemos que esses empréstimos não abatem a nossa imensa dívida pública. Tampouco financiam a produção nacional. O que aconteceria se o governo simplesmente ignorasse a ''secura'' de dólares e deixasse o mercado à sua própria sorte? Só em julho, o BC torrou mais de US$ 1 bilhão e não evitou o recorde da cotação da moeda, valorizada em 23% ao final do mês.
Até que ponto o Brasil se beneficia quando uma missão de diretores do BC sai, como agora, em disparada rumo a Washington implorando por uns milhões de dólares salvadores? Além de meia dúzia de empresários que necessitam da moeda para pagar dívidas e dar sobrevida aos seus negócios, quem encherá os bolsos com esse dinheiro novo que possivelmente virá?
Só o Banco Central pode ter resposta a estas perguntas. Através das mesas de câmbio, o xerife das finanças nacionais, Armínio Fraga, conhece bem, se quiser, os especuladores que obrigam o País a minar as suas reservas e a se endividar ainda mais junto aos organismos internacionais. Espécie de 'croupier' do mercado, é o BC que tem dinheiro em caixa para inibir as apostas e é o único que conhece a posição de cada ''jogador''. Poderia, por isso, proteger as reservas e o País. Momento oportuno para o Senado entrar nessa brincadeira cara e exigir do Banco Central que revele quem são os autores desses autênticos atentados à moeda nacional.





