Não se imaginava, outrora, que empresários viessem a apoiar Luiz Inácio Lula da Silva para Presidente, pois era sobre eles que o então líder sindical destilava as suas iras, imaginando que a classe empresarial era a culpada pelos males nacionais. Hoje Lula os vê de maneira diferente, e o segmento que agora o apoia também mudou seu ponto de vista com relação ao candidato. Ao menos essa candidatura é, até o momento, a que se apresenta mais asséptica entre as três preferenciais, porque é a que tem menos grupos de risco a apoiá-la.
O candidato José Serra, que, pelos indicadores da pesquisa, figura com menor chance, estampa o carimbo oficial e a idéia implícita do continuismo do que aí está, e isso afugenta o eleitor. Ciro Gomes arrasta malas pesadas como ACM e os Sarney, de triste lembrança; vê seu companheiro de chapa envolvido em denúncia de corrupção, e o coordenador de sua campanha acusado de negócios com PC Farias. Não convencem ninguém as suas declarações de que acusações contra os outros não o atingem, porque se sabe que, se ele chegar ao poder, terá de compartilhar a convivência com essas pessoas, e com toda certeza será uma convivência incômoda e indigesta, para ele e para a nação.
Lula carrega, como herança pouco simpática aos olhos da população, o fato de pertencer ao PT de alas ainda radicais uma qualificada de perturbadora da ordem pública e outra de rabugenta embora já não tenham elas a expressão do passado. O apoio que lhe devota Orestes Quércia, se não tão ostensivo, é outro elemento negativo para a candidatura petista.
Em seu discurso, terça-feira, sob as cúpulas da poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Lula recebeu aplauso do segmento empresarial que o apoia e disse algumas verdades, uma delas a necessidade de sintonia no relacionamento do governo federal com a sociedade, o que nunca ocorreu com o regime ora ocupante do poder. Acentuou que o Estado precisa ter um caráter mais harmonizador, indutor e planejador dentro da economia.
Lula deixou no ar a indagação que é de todos os brasileiros: terão adiantado alguma coisa as inumeráveis viagens do presidente Fernando Henrique Cardoso ao exterior, quando poderia ter voltado sua atenção para os problemas internos do País? O candidato sabe que, no mundo globalizado de hoje, é preciso também ir lá fora mostrar presença e negociar, não certamente com a obsessão do presidente FHC, que das suas andanças externas pouco trouxe de proveitoso, a não ser honrarias e aplausos pessoais, por inspiração dos velhos amigos intelectuais.
Propostas de grandes reformas não faltam, em todos os candidatos, mas sabe-se que da teoria à execução é longa a distância, pela natureza do viciado sistema político-governamental vigorante no Brasil. Mas ao menos não se pode negar que a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva é a que se apresenta mais limpa e menos infestada de apoiadores espúrios.

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