OPINIÃO DA FOLHA - Os bingos num país de jogatina
O Brasil é um imenso cassino, bancado pelo governo. Gigantesca fortuna desloca-se diariamente do bolso dos cidadãos, em forma de apostas, e vai para os cofres oficiais, promovendo uma sangria que descapitaliza as bases e concentra-se em poder do dono da banca. O que é feito com esse dinheiro está escrito no anverso dos volantes, mas ainda não se conhece a exata prestação de contas disso, embora a Caixa Econômica mostre a receita em seu site na internet.
É neste país de jogatina oficial, aberta de segunda a domingo, que tanto alarde se faz, agora, com a iminente reabertura dos bingos. Não fosse a jogatina desbragada um cancro social, se poderia dizer que um jogo a mais ou um a menos não faz diferença. Tudo, então, não passa de uma grande encenação, parecendo que no Brasil não se joga e que é aqui é um reduto de moralidade. Nem importa entrar no mérito e avaliar se o bingo e as máquinas caça-níqueis são ou não antros de lavagem de dinheiro e têm vinculação com o narcotráfico. Porque todas as formas de jogo são igualmente nocivas.
Voltemos à banca oficial: segunda-feira joga-se lotofácil; terça, quina e dupla sena; quarta, loteria federal, mega sena e lotomania; quinta, de novo a quina; sexta, outra vez dupla sena; sábado, novamente lotomania, loteria federal, quina e mega sena; e domingo opera-se a loteria esportiva. Jogo para todas as apetências. E mais o cassino eletrônico de Sílvio Santos, os sorteios do tipo totobola, as tômbolas beneficentes, o jogo carteado dos cassinos nada clandestinos e o popular jogo do bicho, este já inserido na categoria de folclore, como a pinga e a feijoada.
O brasileiro reclama se certos impostos sobem mas não se dá conta de que as apostas diárias nessas bancas de jogatina são uma forma indireta de tributação, porque é dinheiro que vai e não se sabe de que maneira retorna. Está escrito que 4,5% da receita vai para o esporte, mais 1,7% específicos para o Comitê Olímpico, 0,3% para o Comitê Paraolímpico, 18,1% para a seguridade social, 7,76 para financiamento ao estudante universitário, 3,14% para o fundo penitenciário e 13,8% a título de imposto de renda. Total de 53,30%. É do restante que saem os prêmios, embora não se saiba em que exata porcentagem.
Com o arquivamento da medida provisória do governo federal que proibia o funcionamento dos bingos e caça-níqueis, uma barulheira nacional se instala, com influência inclusive sobre o mercado de capitais, a cotação do dólar e o risco-Brasil. Para não falar das brigas regionais, em que os governos Paraná incluído anunciam que não irão permitir a reabertura dos bingos.
Turbulências de efeito paralisante, num país às voltas com sobressaltos diários, de diferentes naturezas, e todas de resultados negativos. Fosse esta uma nação de abundância financeira e de cidadãos com elevado padrão de vida, a jogatina não provocaria tanto dano. Mas com esse cassino aberto sete dias por semana, as minguadas economias dos cidadãos deixam de destinar-se ao leite das crianças e vão para o ''pano verde''. Se a um passe de mágica toda essa jogatina oficial e particular desaparecesse, o Brasil daria um salto de qualidade.





