OPINIÃO DA FOLHA - Obama já sofrendo primeiros desgastes
Chegando ao 13º dia do mandato, o presidente Barack Obama já enfrenta as primeiras dificuldades e algum desgaste político. O primeiro foi a recusa de um juiz militar de Guantánamo em suspender, por quatro meses, o processo contra um recluso daquela prisão norte-americana em Cuba, contrariando o que Obama havia determinado. O fato surpreendeu a Casa Branca, e o caso será solucionado se o Pentágono (a sede central das forças armadas) retirar a acusação que pesa sobre o homem.
Outro dilema é o risco de ocorrer uma ruputura com os militares se for decretada a aceleração da retirada das tropas norte-americanas do Iraque. A situação tornou-se difícil e o presidente já percebe que não pode retirar uma brigada de combate por mês, durante os seus primeiros 16 meses no cargo, como havia apregoado em campanha.
Razões políticas às vezes esbarram nas estratégias militares, e se os comandantes das armas são muito poderosos nas ditaduras, não são menos relevantes nas grandes democracias. Porque o poder das forças armadas é um dos fortes pilares que sustentam os regimes democráticos. No caso de Guantánamo, a decisão agora cabe ao Pentágono, não se sabendo até que ponto esse centro de decisões logísticas está disposto a arquivar os processos em curso envolvendo os prisioneiros, que são acusados de atos terroristas contra os Estados Unidos. Advogados e ativistas dos direitos humanos consideram injusta a suspensão dos julgamentos. Há o caso de um prisioneiro passível de pena de morte, pela tipificação de seus atos perante a lei norte-americana. Em tais casos a oficialidade e a opinião pública nos EUA não são muito propensas a condescendências. Mas o poder de uma nova ordem está presente na grande nação e há forte corrente de esperança e uma vontade nacional de cooperar com a administração que acaba de instalar-se.
Assim mesmo, estes primeiros sinais são um aviso de que as coisas não são tão simples e que o poder democrático se estriba em equivalência de poderes, não bastando apenas uma determinação unilateral, mesmo que parta do mandatário máximo. Um povo como o estadunidense, acostumado a rigorosa disciplina, tem mais facilidade de conviver com ordens rígidas do que com vozes moderadas, como estas que agora emanam do núcleo do poder em Washington. Barack Obama está decididamente inclinado a fazer mudanças, e a nação talvez tenha de aprender a tambem moderar seus costumes e mudar certos conceitos, sem prejudicar o que possui de mais sagrado que é o seu inabalável regime democrático.





