As mulheres, assim como todos os cidadãos, devem lutar em defesa de suas próprias causas, mas também pelas causas nacionais. Mulheres e homens não são classes, mas integrantes do idêntico tecido social. Um movimento feminista não pode encerrar uma ideologia separatista, colocando a comunidade feminina de um lado e a masculina de outro, como poderes, direitos e anseios eventualmente antagônicos. Leu-se ontem que as lideranças feministas, em São Paulo, querem aproveitar o crescimento da importância da mulher no processo eleitoral para defender uma pauta política própria. Os temas estão enfeixados num documento de 43 páginas denominado Plataforma Política Feminista.
Se a razão é aproveitar o momento político, a oportunidade é excelente para a mulher levantar bandeiras em defesa dos interesses gerais dos brasileiros e não questões específicas que tenham a ver apenas com elas. Verdade que o documento menciona o sistema único de sa© úde, a educação, o trabalho, a economia brasileira e a desigualdade social, mas sempre com a tonalidade do que isso reflete no universo feminino. A ação política feminista ainda não evoluiu muito além dos proclamados direitos da mulher e que tratam de sua relação com o trabalho, da vida e assédio sexuais, da concepção e da anti-concepção, das doenças sexualmente transmissíveis, da legalização do aborto e pleitos afins.
O debate com o nome de ''mulheres e eleições 2002'', que marcará o lançamento da Plataforma Política Feminista, vai discutir o papel da mulher na sociedade. Observe-se que está presente a ênfase para a mulher e o seu papel, e não o enfoque para elas como membros comuns da sociedade, assim como os homens o são e assim se fazem normalmente representar. A distinção, sempre enfática, da mulher como agente, resulta numa implícita idéia de separação. Se as mulheres desejam impor a sua marca de cidadãs e senhoras dos seus direitos e nem é necessário que o façam, pois elas já o são não têm necessariamente que se identificar como mulheres, mas como integrantes de um só corpo social. Ao invés de uma ''plataforma política feminista'', uma ''plataforma política em defesa da causa nacional'' uma aparente alteração apenas de ordem semântica mas que é mais que isso, por alcançar maior alcance e abrangência.
Um movimento de mulheres-cidadãs pode abarcar as mais diferentes reivindicações, como melhor salário e segurança para os homens, que são os que lidam mais com o serviço pesado e perigoso, questões como a exorbitância dos juros bancários, a inoperância do governo e a lentidão do Congresso para discutir as grandes reformas, o déficit da Previdência, os elevados encargos sociais, a inadequada legislação trabalhista, as reivindicações da agricultura, a preservação do meio-ambiente, o desemprego e a violência, a disseminação das drogas pelo crime organizado e o imobilismo do Exército diante dessa questão, que é de segurança nacional, etc. Se a mulher deseja a efetiva participação na dinâmica da sociedade, deve ir abandonando os velhos slogans feministas e mudar o tom do discurso, da reivindicação e da ação.

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