OPINIÃO DA FOLHA - O marasmo do Governo Lula
Declaração do presidente do Supremo Tribunal Federal, Maurício Corrêa, define bem a situação da governabilidade brasileira: ''O governo se encontra um pouco tonto''. Pode-se entender de várias formas essa afirmativa, mas é certo que o presidente Lula parece meio perdido e já não tem firmeza de comando. Suas palavras, de bombástico efeito nas primeiras semanas de seu mandato e lá se vão 16 meses já não encontram ressonância, e nem a sua presença é requisitada nos eventos nacionais. Dizer-se que o Brasil está perdido, como algo supostamente irrecuperável, está longe de ser verdade, e nem existe esse risco. Mas o governo, este sim, precisa encontrar-se e começar a administrar o Brasil naquilo que lhe compete e deixar que ande livre e solto o que não é de sua competência. Uma das liberdades reclamadas é eliminar os obstáculos que dificultam a iniciativa privada carga tributária exorbitante, custo alto do dinheiro, centralização de renda, burocracia emperradora, lei trabalhista desestimuladora de contratações, falta de definições claras que sintonizem governo e classes produtoras, e por aí em diante.
Sonho como o da Fome Zero apenas em parte tornou-se realidade, e os dez milhões de empregos não saíram do ponto de largada. Os índices de desemprego se alargaram e os da miséria social também. Movimentos de subversão da ordem, como o MST, consolidaram-se como violentadores da lei e da ordem e cresceram a partir do novo governo. A máquina pública continua inflada e desperdiçadora, e se tal não bastasse já está aprovada a criação de quase 2.800 cargos de confiança e os jornais falam que 40 mil novos funcionários serão contratados por concurso. O aumento da remessa de lucros para o exterior é assustador. Greves na esfera oficial pipocam, escândalos já aconteceram vinculando figuras de ligação estreita com o sistema, um ministro (o dos Transportes) faz críticas ao próprio chefe do governo, e o presidente parece sem força e sem autoridade para uma medida austera contra isso. O ministro da Agricultura ofende publicamente seu colega do Planejamento e tudo fica por isso mesmo. Só neste ''abril infernal'' (mês que parece não haver terminado, porque o avanço das legiões de João Pedro Stédile continua) houve uma centena de invasões de terras improdutivas e também produtivas, sem nenhuma sanção.
Num momento tão crítico, o salário mínimo não pôde subir além do que subiu e milagre nesse sentido o governo nem poderia fazer, mas o descontentamento popular agravou-se. E ontem mais um problema veio à tona, e este de delicado contexto institucional: a insatisfação dos comandos militares com o ministro da Defesa, José Viegas, ante a possibilidade de renovação de um custoso contrato que celebrou no ano passado, com a Fundação Getúlio Vargas (sem licitação e algo que se vincula a um velho amigo seu), para coordenar um denominado ''projeto de reengenharia do processo de gestão das Forças Armadas''. Isto no momento em que a tropa reivindica melhoria dos soldos. Problemas são inerentes aos governos, mas o desencanto e a inquietação da nação já são preocupantes, pela ausência de projetos, falta de ação governamental, demonstração de fragilidade e insegurança do presidente Lula e o temor que ele esteja, realmente, não um pouco mas bastante tonto.





