Melhor seria se o ''The New York Times'', e no geral a mídia internacional, enfocassem o Brasil sob aspecto mais lisonjeiro do que mostrar, sistematicamente, facetas das mazelas sociais brasileiras. Que, infelizmente, são realidade e constituem notícia. Como não se pode contar com essa generosidade, governantes e a nação têm de mudar formas de ser antes de pretender mudar o comportamento dos veículos de comunicação. Agora o ''Times'', através de reportagem de seu correspondente no Brasil, abala as estruturas palacianas do altiplano com o enfoque sobre o suposto excesso do consumo de bebida alcoólica pelo presidente Lula. Como é difícil recolher o que foi semeado, o mundo crê a priori no que foi escrito, e esse gole de alto teor tem de ser tragado. Só o presidente Lula sabe até que ponto deve levar a sério o que o jornal nova-iorquino escreveu sobre ele, e tirar lições do episódio.
Sabe-se que o presidente não é abstêmio em bebida, assim como a maioria do povo brasileiro também não é. Publicações na imprensa nacional já haviam, com sutileza, falado do assunto pelo fato relevante de que um dos apreciadores de bebida era justamente um brasileiro especial, o ocupante do trono presidencial mas talvez não houvesse necessidade de o influente jornal americano produzir uma reportagem a respeito. Todos sabem que o próprio presidente George W. Bush é um apreciador de uísque e certamente digere seus goles também em serviço, e nem por isso a imprensa americana o detona. Tratando-se de um país ainda frágil como o Brasil, e, a bem da verdade, pouco acreditado lá fora, uma reportagem como essa denigre ainda mais a imagem, já obscurecida por conta sobretudo de suas misérias sociais, da corrupção, da pouca seriedade e de suas negligências.
Deve porém saber o presidente Lula que versões populares são fatos, e como tal são noticiados. Há então que evitar que essas versões se produzam, porque quando um cidadão é guindado ao poder, já não se pertence. Se vícios tem, é mais do que sua obrigação eliminá-los. Um governante deixa de ser um comum. Sua figura ganha amplitude e passa a ser visível de todos os quadrantes. O que um governante faz, mesmo no interior de quatro paredes, filtra-se rapidamente e escorre pelas ruas e espalha-se pelo éter. A reportagem do NYT repercutiu em todo o mundo, e isso obviamente não é bom para o Brasil. Mas, se isso já não se pode consertar por via de contestação ou eventual ação judicial contra o jornal como se aventa, embora uma bobagem fazê-lo melhor é tirar proveito do episódio e reaprumar comportamentos. Se beber ''faz parte'', como costuma dizer a linguagem popular, há que saber como e em que intensidadade e circunstância o presidente da República deve fazê-lo.

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