OPINIÃO DA FOLHA - O efeito das palavras
A declaração do governador Roberto Requião de que é preciso reconhecer o MST como ''benção de Deus'' provocou naturais reações de euforia entre as lideranças do Movimento dos Sem-Terra e as esperadas manifestações de desagrado dos produtores rurais. Não chegou a ser surpresa a posição do governador, que, até por convicção ideológica, nunca escondeu sua simpatia pela campanha dos sem-terra. Mas suas palavras, pela força da origem pois partem do chefe do Governo podem impulsionar o avanço das invasões no Paraná e transformar o Estado em pólo convergente da onda de apropriações indevidas de terras. A clara posição da autoridade governamental máxima do Paraná deixa supor que, aqui, há o apoio oficial para a ação dos sem-terra e que a presença deles, se já contava com a ''benção de Deus'', agora conta também com a benção do governador.
As palavras nem sempre valem pelo próprio contéudo mas pelo poder de quem as profere. Os paranaenses, embora muitas vezes não levem ao pé da letra o que declara o governador, porque conhecem seu estilo, não ficaram tão indiferentes desta vez, ante o seu assumido conceito acerca da política dos sem-terra e a sua omissão, no episódio, quanto à importância do produtor do campo. Entendem as pessoas realmente preocupadas com a questão agrária que o momento não é de acirrar ânimos, já suficientemente efervescentes, pois se já havia apreensão por parte da comunidade produtora rural agora ela aumenta. Se a postura do governador deve ser a da busca de solução para o problema dos colonos sem-terra, o que é anseio de todos os paranaenses, não deve deixar no ar a suposição de que uma ''benção de Deus'' se sobreponha a outra benção, que é a existência do agricultor.
A atividade do campo, no Paraná, é altamente produtiva e a que mais emprega, produzindo o alimento que chega às mesas e dando grande sustentação à balança de exportações. Não é um delito ser proprietário rural, ademais sabendo-se que o Estado do Paraná não tem latifúndios e que as terras existentes, incluindo-se as de pastagem, estão em franco aproveitamento. Se ganham dimensão as palavras segundo quem as pronuncia, não se deve levar a sério o dizer do governador de que ''doente é a sociedade'', como contrapeso para justificar que ''o MST é saudável''. Melhor é atribuir o dito apenas a um de seus costumeiros gracejos verbais.
O aspecto risonho de todo esse jogo de palavras é que a ''infernização'' anunciada e levada adiante pelo líder dos sem-terra, João Pedro Stédile, e a ''dessatanização'' do MST pregada por Requião, são posições conflitantes, embora ambos defendam a mesma causa. Porque foi um deles quem colocou satã à frente... Stédile pode ter se melindrado com a proposta ''dessatanizadora'' do governador.





