O sensacionalismo pode render bons índices de audiência para quem faz televisão. E raras vezes seus autores são punidos, embora estampe-se a flagrante imperfeição do que é feito e mostrado a milhares de pessoas. Programas de auditório chegam a abrir intimidades de casais de baixo nível cultural, que de uma forma ou de outra submetem-se às necessidades da platéia. Puxando para o dramalhão, às vezes pais e filhos são expostos, com um deles reclamando abertamente do comportamento do outro. Brigas de vizinhos ganham destaque, pois o canal que se abre permite tratar com vulgaridade problemas tão íntimos que a maioria dos envolvidos preferiria tratar sem uma exposição pública.
  Um famoso apresentador de televisão pede desculpas. Sua produção teria pago uma quantia irrisória para duas pessoas que se encapuzaram e deram entrevistas como membros de uma perigosa organização criminosa. Cada um dos encapuzados teria recebido R$ 500,00. O apresentador, que divide pontos de audiência com um concorrente também fortíssimo nas tarde de domingo, justifica que não teve envolvimento na produção da entrevista e também que desconhecia o seu conteúdo. Vir a público para se desculpar já é positivo. Dizer que desconhecia o que sua produção armava nos bastidores, como também o conteúdo do que foi armado, não o isenta de culpa.
  Mas qualquer que fosse a responsabilização jurídica cabível ao caso, esta teria menos peso que a punição imposta pelo público a este tipo de erro. Desde que houvesse público crítico. O pagamento de cachê a alguns participantes de programas de auditório já não é novidade. Aliás, sempre foi motivo de polêmica e, recentemente, resultou em troca de acusações abertas entre dois apresentadores de emissoras diferentes. E o que se ventilou foi a ocorrências de situações armadas, inclusive com o uso de atores, desses que são pagos para assumir diante da platéia papéis de marido ou mulher traídos, filhos ou pais judiados e até heróis de lama.
  Platéia crítica, eis a questão. Pessoas atentas nas histórias de outras nem sempre querem participar da busca de soluções para o drama alheio. As lágrimas que escorrem no rosto de uma personagem, sejam verdadeiras ou tramadas, resultam em cenas chocantes e viram espetáculo. E quanto mais vulgar a forma como um drama for colocado, mais emoção provoca na platéia e mais pontos rende na audiência dos apresentadores.
  Os meios que levam a este tipo de espetáculo são democrático. No caso da televisão, ninguém é obrigado a ligar o seu aparelho e sintonizar em determinada emissora no momento em que um programa de conteúdo questionável está no ar. Aliás, o que ocorre é o contrário: paga-se para assistir. E se a alternativa que se busca é apenas a diversão, e não a informação e a cultura, então que os espetáculos vulgares sejam transformados em novelões. Mas quem assiste deve ser pelo menos informado que o que se passa pode ser apenas uma armação. Como nos remédios controlados, que têm tarjas.

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