Se não acalmou os mercados financeiros, a indicação de Henrique Meirelles, quinta-feira, para a sucessão de Armínio Fraga no Banco Central, certamente assusta boa parte da sociedade brasileira. Quem poderia imaginar que a escolha do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva para um cargo de tamanha importância recairia justamente sobre um tucano, da mesma corrente política que deveria desocupar a instituição com o fim do reinado FHC?
Pode-se supor que a expectativa dos brasileiros, principalmente dos que não embolsam gordos lucros com a alta irracional do dólar, era a de que a nova equipe do BC iniciasse os trabalhos por uma criteriosa investigação dos atos de Fraga e companhia nos últimos tempos.
Quem ganhou fortunas com a roda da especulação neste ano, por exemplo? Quais foram as instituições financeiras que se beneficiaram da política cambial arquitetada por Pedro Malan e tão fielmente executada por Fraga? Que investidores brasileiros estouraram champanhe bem antes da virada do ano, ao lado de especuladores estrangeiros que ganharam fábulas de dinheiro ao custo do empobrecimento nacional?
Se a raposa continuar cuidando do galinheiro, são mínimas as chances de termos respostas a estas perguntas. Mesmo que o presidente eleito esteja prevendo um ''mandato-tampão'', programando a troca de comando em um futuro próximo, pode-se imaginar que as ''provas dos crimes'' estarão definitivamente apagadas quando a equipe da faxina chegar.
A escolha de Meirelles para o BC é uma decepção para quem espera mudanças na cena política brasileira. Refresca pouco saber que o novo bam-bam-bam do BC transita bem nos círculos petistas, contando com a admiração de José Dirceu e Aloizio Mercadante. Preocupa mais ainda ver a acolhida que a escolha teve no ninho tucano. Malan e Fraga estão encantados.
Cheia de razão, a senadora petista Heloísa Helena lembra que ninguém chega à direção de um BankBoston cargo ocupado até recentemente por Meirelles sem ter se dedicado ativamente ao sistema financeiro internacional. Em resumo: o homem está afinado com o mercado, no momento em que a população pede autoridades sintonizadas com os interesses nacionais.

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