OPINIÃO DA FOLHA - Insensato culto ao desperdício
Números de instituições sérias revelam que, a cada três edifícios construídos no Brasil, o correspondente a um deles é jogado fora em forma de desperdício de material. Tal ocorre, em grande parte, por desleixo dos operários, que não têm a necessária consciência disto que fazem e também não se preocupam, porque a obra não lhes pertence. Mais estarrecedor é o desperdício de alimentos, que no Brasil equivale a R$ 12 bilhões anuais, segundo levantamento da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo. Em outras palavras, é uma quantidade tão grande de comida que daria para alimentar 30 milhões de pessoas por ano, ou seja, quase toda a população carente do País, que soma em torno de 40 milhões, segundo números do IBGE.
Só os supermercados lançam nas caixas de lixo 13 milhões de toneladas anuais de alimento. A cada quatro quilos de frutas e verduras, um quilo é jogado fora. Não está aí contabilizado o que ocorre nas cozinhas industriais, nos restaurantes e nas residências, onde o desperdício é igualmente assustador. Tal não ocorre apenas nas casas de famílias abastadas mas também nas pobres, porque o desperdício é algo arraigado na cultura brasileira. Serviçais que operam na construção civil e no setor de manuseio de alimentos são, na maioria, operários oriundos das camadas pobres, porém o estado de pobreza em que vivem, com baixos salários e péssima condição de vida, não os faz mais conscientes.
O culto ao desperdício é generalizado, abrangendo todas as camadas sociais. Milhões de co-irmãos passam fome, quando há alimento suficiente para todos, só que os excessos se perdem, desde a colheita até o transporte, o armazenamento, a distribuição e o desperdício caseiro. No campo, os excedentes são dados aos animais de criação, mas na cidade tudo vai para o lixo, e é nos grandes centros de consumo onde ocorre o maior abuso. Isto caracteriza crime, num país de população pobre como o Brasil, e mesmo que não o fosse, há que considerar que muitos povos do mundo passam fome, constituindo portanto uma heresia jogar comida fora.
Assumir consciência contra o desperdício é ensinamento que deveria ser passado pelas escolas, desde os cursos pré-primários, mas tal não figura no currículo, eis que os próprios professores são os primeiros a dar exemplo de desperdício ao impor excesso de gasto com material escolar e de como utilizá-lo. Organizações civis costumam percorrer feiras e supermercados para recolher alimentos ainda aproveitáveis e destiná-los a instituições necessitadas, porém a prática do desperdício persiste, porque falta ao brasileiro a educação para evitar a perda de tanto alimento e de matéria-prima em geral, em tudo o que faça. Uma cruzada educacional a partir das escolas, das igrejas, das famílias e dos veículos de comunicação, levaria as pessoas a uma tomada de consciência, porque o que se está fazendo no Brasil é um verdadeiro crime contra a humanidade.





