Quem pensa que o desastre do apagão é assunto do passado, pode ter surpresas. A crise de energia elétrica que provocou grandes estragos na economia brasileira no ano passado ainda deve custar caro aos brasileiros. As concessionárias de energia querem, a partir do ano que vem, reajustar as tarifas com base no contrato que mantêm com o governo federal e que garante o ''reposicionamento'' dos preços para garantir o equilíbrio econômico-financeiro das distribuidoras.
O cidadão, portanto, pode preparar o bolso porque caberá a ele garantir o azul nas contas das companhias. Em sete anos, o preço da energia elétrica subiu 167% para o consumidor residencial no Brasil, como a Folha noticiou na segunda-feira. E vem mais alta por aí. Em 2003, 17 distribuidoras terão sinal verde da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) para aplicar reajustes nos preços. Entre elas, está a Companhia Paranaense de Energia (Copel).
Por força de contrato, as companhias distribuidoras terão direito de elevar tarifas para compensar a alta do dólar e da carga fiscal. Dois fatores de pressão que, se oneram as empresas elétricas, esfolam igualmente o consumidor. Mas há absurdo maior nessa história: as distribuidoras terão compensação também pela queda no consumo provocada pela iminência da crise de abastecimento em 2001, por conta e obra da falta de planejamento do governo federal.
Além de racionar o consumo, arcar com um seguro para evitar o colapso no abastecimento e sofrer o impacto direto da retração econômica causada pela crise energética, o brasileiro será chamado a contribuir para que as distribuidoras não amarguem perdas. O cidadão comum, que pagou sobretaxa se não conseguiu economizar e seguro-apagão se conseguiu, será cobrado agora porque ''abusou'' na economia.
O Brasil ocupa a 12 posição entre os geradores mundiais, produzindo 1,5% da energia elétrica disponível no planeta, segundo levantamento da empresa inglesa BP. Mesmo assim, o serviço tem se tornado artigo de luxo. Para o setor industrial, a alta foi de 111% desde 1995. Para o comércio, 110%. Com a anunciada eliminação de subsídios a estes setores a partir do ano que vem, já se sabe que as contas de energia das empresas brasileiras crescerão de modo generalizado. O final já se pode prever: o consumidor acabará convidado a dividir também essa fatura na forma de produtos e serviços inflacionados.
Além disso, a Nação é obrigada a assistir, como se confere em reportagem publicada hoje no caderno Folha Economia, uma queda de braço dentro do próprio governo federal, fato que está se tornando comum na atual administração do País. Uma decisão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), já onerosa para o cidadão, está prestes a ser derrubada, conforme resultado de reunião ontem, com a participação do Presidente da República. E se isso se concretizar, o consumidor de energia, mais uma vez, será o principal prejudicado.

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