Eventual queda nos preços internacionais das principais commodities brasileiras, principalmente a soja - como está prevendo o ministro Luiz Furlan, do Desenvolvimento - realmente afeta os demais segmentos econômicos, exigindo do governo medidas que atenuem esse impacto, como foi abordado ontem neste espaço editorial. Afinal, o agronegócio brasileiro e setores e subsetores a ele vinculados, têm sido o grande fator de sustentação da economia, tanto no equilíbrio da balança comercial como no abastecimento interno, de maneira a garantir a estabilidade dos preços.
O que os agentes do agronegócio estão questionando, porém, é se, de fato, o diagnóstico do ministro está correto. Entender, como sugeriu Furlan - ao falar, dias atrás, para cerca de 80 empresários em São Paulo - que o simples aumento da safra norte-americana de soja pode comprometer a performance das exportações brasileiras é, no mínimo, discutível. Pode não ser uma heresia técnica tal interpretação já que riscos comerciais são inerentes, mas é questionável que os preços venham a cair tanto. Essa preocupação deixa entrever uma visão linear do amplo mercado externo.
Enquanto a China estiver comprando, não há crise no mercado, resumem empresários do agronegócio.
O mercado externo está receptivo aos produtos brasileiros por mérito dos produtores que investiram na qualidade e acreditaram na competitividade; e, inclusive, por audácia de traders que ousam na busca de mercado. A conquista de espaço não precisa ser creditada ao governo, nem a ministros que exibem ar de presunçosa competência na negociação com países compradores.
Aos políticos melhor seria se voltassem suas atenções para investimentos de apoio às exportações como aporte de recursos em infra-estrutura, logística no transporte fluvial e ferroviário, melhoria da malha rodoviária que se deteriora, e aumento da base tecnológica para melhorar a eficácia da produção. Este último, aliás, o único ponto que efetivamente vai bem, contribuindo para a redução do custo dentro da porteira.
Para se ter idéia dessa camisa de força que é a falta de logística, basta lembrar o recente episódio do Porto de Paranaguá. O retorno das exportações pelo Porto, três semanas atrás, acentuou ainda mais a diferença recebida pelos produtores brasileiros e norte-americanos pela soja. Houve dia em que o prêmio era negativo para os brasileiros e acentuadamente positivo para os norte-americanos.
Isso quer dizer que os brasileiros recebiam apenas 878 centavos de dólar por bushel e os norte-americanos, 1.049 centavos. A referência é a Bolsa de Chicago, que ficou em 1.013 centavos de dólar, naquele dia. O retorno das atividades do Porto de Paranaguá -desejado por todos - mostrou, no entanto, ainda mais as deficiências brasileiras no setor de exportações.
Enfim, cabe ao governo, implantar programas de apoio à produtividade, reduzindo os gargalos e desonereando a tributação, outro empecilho à entrada de dólares que o país tanto precisa.

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