OPINIÃO DA FOLHA - Do que é capaz uma liderança
A liderança de um só homem pode mudar a face do mundo, pela indução das multidões a perseguir um ideal e por ele lutar até o fim, sem medir sacrifícios; um só homem é capaz de conduzir uma nação a grandes conquistas, como também pode afundá-la na depressão e na sensação de incapacidade. O técnico Luiz Felipe Scolari mostrou que, apenas pela habilidade de conduzir os seus homens, conseguiu levar uma seleção, no início desacreditada, a transpor os próprios obstáculos, a superar-se e ao final revelar-se a melhor. Um homem obcecado na defesa de suas convicções mas nem por isso desarmônico com o grupo sob o seu comando. Como todos os líderes, inflexível em suas crenças mais ortodoxas porém dotado da candura para transformar jogadores e todo o grupo de retaguarda numa grande família, e ele, Scolari, no grande pai.
Pelo seu conhecimento do ofício, pela sua firmeza e pela sua simplicidade, ele não apenas solidificou uma equipe já por natureza campeã, mas afastou da seleção vitoriosa eventuais manifestações de arrogância antes, durante e depois da grande vitória. Soube detectar e afastar em tempo elementos desagregadores, indiferente à crítica dos contrários, e transformou o punhado de brasileiros que representou a pátria nos gramados asiáticos em campeões também da humildade e da reverência. Nem no transcorrer dos jogos e nem na tomada de posse do troféu que conferiu ao Brasil o título de pentacampeão mundial de futebol, viu-se e ouviu-se do treinador, dos jogadores, da comissão técnica, um gesto ou uma palavra destoantes.
O Brasil já teve em sua história política presidentes que foram, acima de tudo, grandes líderes à frente do povo, como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, homens que conseguiam manter sempre em alta a auto-estima e a vibração das massas. Quando Getúlio, em presença do povo ou falando pelo rádio, conclamava os ''trabalhadores do Brasil'', estremecia a nação inteira. Juscelino semeava simpatia popular e ganhava a admiração de toda a gente brasileira. Não à toa estes dois estadistas figuram na história como os mais realizadores dos presidentes e os que mais a pátria reverenciou. Eles eram chefes-de-Estado que erguiam as multidões e mantinham acesa a chama do entusiasmo nacional. Cantigas populares exaltavam os seus nomes e as estações de rádio as tocavam com frequência. Foram épocas de desenvolvimento.
Na vigência do atual governo, sentiram os brasileiros a ausência de um presidente-líder, que se aproximasse do povo ou, pelo menos, lhes dirigisse palavras de incentivo e de esperança e que reconduzissem a nação não muito acreditada aos olhos do mundo ao patamar de sua real grandeza. Luiz Felipe Scolari agora cidadão honorário do Brasil, no conceito de 170 milhões de patrícios mostrou do que é capaz uma sólida liderançaá. Ele não produziu uma seleção campeã, apenas soube extrair dela o seu potencial. Que o exemplo sirva para o presidente da República e para os candidatos à sua sucessão, especialmente aquele que for guindado ao poder.





