Ainda não se descobriu regime melhor que a democracia, e este momento de campanha eleitoral enquadra-se nesse contexto, mas é certo que as pessoas se enfadam com a poluição sonora e visual disseminada pelos candidatos e com a saturação de suas mensagens. E, para intensificar o clima já denso da propaganda política, hoje começam os horários eleitorais gratuítos no rádio e na televisão. O regime de concessão oficial das emissoras abertas de rádio e televisão propicia ao sistema usufruir da disponibilização desse tempo, sem ônus. E favorece os candidatos, pela comodidade do palanque eletrônico, que dispensa muitos suores dos comícios públicos e permite o recurso da gravação prévia, que mostra o disputante de forma asséptica, qual produto bem embalado embora não oferecendo garantia de qualidade.
Como o povo também não se dispõe a comparecer aos comícios, a não ser que tenha alguma atração paralela, como um show artístico, não há forma mais prática que o rádio e a televisão para os candidatos se apresentarem ao eleitorado e fazerem as suas promessas. Mas democracia também pressupõe consonância com um estado de satisfação das pessoas, e é certo que a maioria fica entediada com a presença da imagem dos candidatos entrando em suas casas e ocupando horários em que melhor seria ver outras coisas, sobretudo na tevê. Certamente que o povo apreciaria ouvir as propostas dos candidatos, se a tradição não houvesse criado a situação vigente de descrença nos homens públicos e até nas instituições, para não falar dos casos de verdadeira repulsa a eles, porque a história política brasileira fornece razões de sobra para isso.
O que incomoda os cidadãos não é o modelo de eleger seus representantes, para as várias esferas do governo, e nem a obrigatoriedade de comparecer às urnas para esse procedimento, e sim a insinceridade dos candidatos e a desconfiança que recai sobre a maioria deles. Uma campanha eleitoral, que deveria significar um momento de civismo e de consagração da cidadania e do regime democrático, transforma-se num evento indigesto e enfadonho. Mas não há que condenar esse período de agitação de campanha e sim aperfeiçoar o regime político-eleitoral, pela mudança de comportamento do eleitorado, que deverá começar por não eleger ou reeleger candidatos envolvidos em denúncias de corrupção, e nem aventureiros sabidamente despreparados para a função pública. Esta é tarefa do eleitorado, porque é do seu seio que emergem os políticos.

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