OPINIÃO DA FOLHA - Das palavras ao ardor cívico
Existem os governantes práticos e existem os teóricos. Os primeiros são rápidos nas decisões; os segundos, titubeantes. Palavras e desempenho em debates revelam conhecimento ou ignorância mas não necessariamente competência administrativa. Por isso, pode-se tirar poucas conclusões do primeiro debate, na TV, dos quatro principais candidatos à Presidência da República, ocorrido domingo.
Como era de esperar, eles disseram o que deles já se sabia, e como os problemas brasileiros são conhecidos e discutidos abertamente, os candidatos não fariam outra coisa senão fazer promessas de resolvê-los. Mas das palavras à execução é longo o caminho, porque será preciso antes de tudo muito de boa vontade que marca os homens de decisão e capacidade de bem relacionar-se com o corpo legislativo, que é manhoso e interesseiro e pode emperrar tudo ou permitir que as coisas andem.
O melhor dos governantes será aquele com anseio obstinado de fazer, daí dizer-se sabiamente que o poder reside no querer. A experiência dos quatro candidatos em funções executivas e legislativas pode evitar que cometam certos erros estratégicos mas não os fará excelentes homens públicos se já não o eram. A experiência pode significar apenas muitos anos de repetição dos mesmos equívocos. As pessoas, assim como os governantes, são o que são, e dificilmente mudam. Os fracos e reticentes não se transformarão, e assim continuarão. Liderança e capacidade de mobilização é algo inerente à natureza de cada um, qual chama que arde e não se apaga um dom que não se adquire nem se perde.
Palavras apenas, como se ouviu no debate dos candidatos, não são testemunho de muita coisa. Erudição, intelectualidade e conhecimento dos problemas não constituem garantia de competência para solucioná-los. Muitas vezes os apenas dotados de boa vontade e da obstinação por fazer são os mais eficazes e fecundos. Cumpre ao eleitor não deixar-se induzir por valores como o de quem saiu-se melhor no debate, porque esse desfile no grande palco representado pela televisão não é um concurso público. Importa identificar o ardor cívico em cada candidato, atributo indisfarçável que revela fé e paixão capazes de remover montanhas.





