A cultura política brasileira criou eleitores de memória curta. Esta é a conclusão a que se pode chegar após conferir os resultados de recente pesquisa divulgada pela Fundação Getúlio Vargas, que apenas comprova cientificamente uma verdade que o próprio brasileiro admite.
De um total de 2.513 pessoas consultadas dois meses após as eleições de outubro de 2002, 45% declaram não se lembrar do nome correto dos candidatos em que votaram para deputado federal. Em relação aos legislativos estaduais, este índice cai para 30%. Quanto ao presidente da República e os governadores de Estado, 1% para o primeiro e 3% para o segundo, o que se justifica, pois segundo a cultura eleitoral, quem votou naquele que está no poder jamais se esquece que é responsável direto pelo que está acontecendo, enquanto aquele que não elegeu o presidente e o governador em quem votou costuma, altivamente, dizer que não é culpado da situação quando os governos vão mal.
Em realidade, o que é ocorre é a perpetuação de um quadro que vem de muito longe, em que a própria cultural colonial, de servidão ao poder constituído, fortaleceu a idéia de que a participação popular nas coisas da política tem pouco valor. E mesmo em algumas fases populistas, sobretudo antes do período militar que se iniciou em 1964, o engajamento do cidadão se limitou aos períodos pré-eleitoral e eleitoral, não passando para as fases seguintes por culpa de uma espécie de letargia natural em relação aos acontecimentos dos palácios federal e estaduais.
A ditadura militar, por outro lado, contribuiu para criar e fortalecer focos de resistência ao poder, cuja história os classifica de subvertidos. Mas estes também foram aniquilados pelo regime. Assim, quando se esperava na abertura política de fins da década de 80 o surgimento de uma sociedade consciente, imaginando-se ter vigorado no regime militar uma escola política silenciosa mas eficiente, no preparo do cidadão para a democracia, viu-se o contrário. A letargia havia se transformado em hibernação coletiva.
Mas ainda despontaram momentos expressivos. A era Collor, no entanto, é a que mais teve participação popular, numa luta que tirou do palácio um presidente envolvido por denúncias de corrupção. Mas foram as mesmas pessoas que pintaram a cara de verde e amarelo, na luta contra o governo de Fernando Collor, que anos depois elegeram e mantiveram no poder por dois mandatos consecutivos outro Fernando, este Henrique Cardoso.
E de Fernando em Fernando chegou-se a Lula da Silva. A eleição de um presidente que se não é populista, pode ser classificado como popular, não significa, de forma alguma, que a cultural eleitoral brasileira sofreu guinada e a consciência agora elege presidentes, governadores e prefeitos. Havia necessidade de mudança e o único critério a pesar na escolha foi o discurso que acenava para tal. Mas, até agora, aquilo que era expectativa ainda não passa de promessa.

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