OPINIÃO DA FOLHA - Com o ideal de 'infernizar'
Coincidentemente na véspera de completar-se o quadragésimo aniversário do golpe militar de março de 1964, que irrompeu para dar fim à onda de agitação comandada pelas esquerdas, o coordenador nacional do Movimento dos Sem-Terra, João Pedro Stédile, anuncia uma nova rodada de desordem social, que segundo ele vai ''infernizar o Brasil''. Por situação idêntica, na época, os militares puseram um basta na convulsão dominante, e o resultado foram 20 anos de ditadura, com muita prisão, tortura e extermínio, e sem grandes avanços sociais e nem o alcance da paz pública que se almejava.
Stédile diz que abril será o ''mês vermelho'' em alusão às cores das bandeiras do MST e que haverá invasões de terras em todo o País, como ação ''infernizadora'' para obrigar o governo a acelerar a reforma agrária. A União Democrática Ruralista já anuncia que entrará com representação no Ministério Público Federal pedindo a prisão de Stédile, por incentivar o terror e comprometer a segurança nacional.
Ao líder dos sem-terra estes nem todos colonos, mas em grande parte oportunistas que se incorporam aos acampados visando obter algum benefício importa pouco resolver o problema social representado pela existência dessas famílias que habitam debaixo das lonas, porém intranquilizar os proprietários de terras, cujo pecado é fazê-las produzir, gerar empregos e, por extensão, favorecer a política nacional de exportação.
O coordenador do MST age, portanto, como um inconsequente, com o ideal mesmo de ''infernizar'', como diz. Ele apregoa o que se conhece das lideranças desse movimento: a quebra da lei e da ordem social, pela invasão indiscriminada da propriedade alheia, seja ela improdutiva ou não, porque sua visão não é beneficiar sem-terra mas dar vasão à própria ira contra os que a possuem um atavismo muito presente na mentalidade daqueles que enxergam no capital e na produção em escala um mal social, como se fora o responsável pelas mazelas do Brasil. Não é a terra produtiva a causa dos males, mas políticas públicas erradas e leis inadequadas, uma delas a trabalhista, que inibe contratações e não se adapta ao trabalhador do campo.
Stédile extrapola o livre direito da manifestação quando prega a violência, a invasão e posse do alheio e a quebra da ordem legal, sem atentar que o avanço sobre um bem produtivo representa a expulsão das pessoas que o ocupam e fazem dele a sua renda. Importa-lhe pouco o prejuízo causado às famílias instaladas na propriedade, tão iguais quanto as que estão acampadas, interessando-lhe apenas figurar como líder, sem medir consequências e sem formular propostas discutíveis. Converte-se assim num líder irresponsável e anárquico, que desaloja uns sob o pretexto de alojar outros, faltando-lhe o sentimento humanista que move os grandes líderes.





