OPINIÃO DA FOLHA - Atraso oficial para conter a miséria
Ao invés de atacar a pobreza própriamente dita, o governo federal ainda está na fase de buscar um indicador comum para medir o grau de miserabilidade da população. Encontrada essa referência básica, só aí o governo ''poderá dar combate com mais eficiência ao problema da pobreza'' anunciam os técnicos governamentais da área. Diz a secretária federal de Assistência Social, Wanda Engel, que a idéia é definir um único critério para estabelecer a linha de pobreza, ''o que vai acabar com as informações desencontradas e com divulgações discrepantes entre o número de pobres e indigentes''.
Por ora, a preocupação daquela autoridade que reflete o pensamento do governo parece ser a precisão dos números e não necessáriamente eliminar com eles. Estas são as conclusões a que se chega diante de tanta minúcia com detalhes, como os de saber a classe dos miseráveis, se pobres ou indigentes, se analfabetos ou com algum grau de educação. Se o próprio IBGE, que é órgão oficial, divulga que no Brasil há 50 milhões vivendo em estado de miséria, mais não será preciso senão adotar providências para diminuir esse índice assustador.
Além de apenas pensar nos aspectos plásticos do problema, o governo pensa tarde, porque os oito anos do atual mandato governamental já estão chegando ao fim e muito pouco poderá ser feito. A não ser e quem sabe esta é a razão do estudo apresentar ao novo governo, que assume dentro de cinco meses, um minucioso relatório, eventualmente documentado em livro com belos gráficos e ilustrações, a mostrar eficiência acadêmica em levantamento e apresentação de dados. Com efeito, pela informação dos jornais de ontem, essa definição do indicador único só estará concluída em novembro.
Houvesse o presidente FHC, desde os primeiros dias de seu governo, visitado o Brasil para conhecer a realidade de sua gente, ao invés de realizar tantas viagens ao exterior para fazer belos discursos e receber aplausos em solenidades de mera função diplomática, poderia por meio de medidas desenvolvimentistas ter amenizado o alarmante índice de miséria social que hoje assola a nação brasileira. E se a miséria já constitui em si um estado de violência, de seu ventre gerou-se uma ação à mão armada, já sem controle e sobre a qual não são necessários indicadores, bastando ver diariamente o noticiário.





