OPINIÃO DA FOLHA - As soluções argentinas
Diferente do que faz o Brasil, o presidente argentino Nestor Kirchner usou parte de superávit fiscal e, ao invés de amortizar a dívida com o Fundo Monetário Internacional como queria esse organismo resolveu aumentar os salários dos aposentados e dos funcionários de estatais, que estavam congelados desde 1991. Os aumentos irão de 8% a 17% para os primeiros e de 13% a 25% para os segundos, significando 547 milhões de pesos de junho a dezembro do corrente ano, beneficiando cerca de 2 milhões de aposentados e 105 mil funcionários. Kirchner recusou-se a ceder à pressão do FMI e tomou a decisão dez dias antes da chegada à Argentina de missão daquele organismo para revisão do acordo de US$ 13,3 bilhões assinado em setembro. Esse acordo estabelece que o país faça economia de 3% do PIB ao ano, ou seja, entre o que arrecada e o que gasta. A medida do presidente foi imediata e estratégica, ou seja, tão logo o Ministério da Economia anunciara o crescimento da arrecadação em 29% em relação com o mês de abril de 2003. Tal aumento se deveu à elevação dos preços dos principais produtos de exportação da Argentina e ao aquecimento do consumo interno.
A melhoria da situação econômica da Argentina acontece pouco tempo depois que o vizinho país entrou em profunda crise, gerando um rodízio contínuo de presidentes, a ponto de já ninguém querer o cargo. Sabia-se, porém, que os argentinos iriam superar aquele momento difícil, até pelo reconhecido bom nível de politização de seu povo, que tem alguns ensinamentos de patriotismo a dar ao Brasil. A medida de Kirchner, de pensar nos seus patrícios antes do FMI, naturalmente gerará algum abalo e alguns incômodos na sua relação com o Fundo, porém é certo que provocará reações positivas na economia interna, pela permanência ''em terra'' daquele meio bilhão de pesos só neste ano, com todos os benefícios do giro desse dinheiro e seus desdobramentos, que o multiplicarão muitas vezes, pois esta é a dinâmica dos números.
Só pelo aquecimento da própria economia uma nação se salva de crises e retoma o desenvolvimento, e esse fenômeno ocorre pela presença da moeda em mãos dos cidadãos, para que circule e se multiplique, pelo giro. Medidas heróicas como essa servem de modelo ao presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que parece pisar entre ovos em sua gestão no comando da República e, nesses passos difusos, tem perdido excelentes oportunidades de mostrar ousadia e autoridade, argamassas com que se forjam os grandes governantes.





