Um belo flagrante fotográfico, embora mostrando um aspecto de pobreza, e a manchete principal deste jornal, ambos na primeira página de ontem, mostraram duas faces marcantes da Londrina setentona. A face revelada pela fotografia mostra uma pinguela tosca, montada pelos próprios moradores do bairro pobre para possibilitar a travessia do ribeirão, e a face boa é a notícia de que a comunidade médica vai construir um grande e moderno hospital e concluí-lo em tempo recorde. Uma, a Londrina da negligência, em que o poder público é vanguardista, e a outra a da iniciativa privada, que é capaz de produzir milagres e entusiasma pela ousadia empreendedora. A população da banda pobre pede uma ponte segura, que permita também a passagem de veículos, entre eles o caminhão do mercado e o ônibus urbano. A Prefeitura alega que o projeto da pequena obra (de apenas 5 metros) está pronto, mas a execução está dependendo da contrapartida pasme-se de verba federal. E não é apenas a ponte que falta mas também a energia elétrica, considerada um luxo para os moradores da zona em questão, que em sua linguagem simples apenas reivindicam ''um bico de luz''.
Enquanto o poder público não consegue construir uma minúscula ponte e, como este jornal mostrou esta semana, permite que escasseiem até alimentos da merenda escolar por entrave burocrático e negligência, o hospital de que se fala será um centro de excelência em medicina, como o definem seus empreendedores 150 médicos da cidade unidos em sistema de consórcio e que investirão R$ 130 milhões na obra.
A Londrina metrópole nunca deixou de expandir-se, em todos os sentidos, e é certo que um dos ônus do crescimento é também a atração de contingentes populacionais pobres, que vislumbram nas luzes urbanas o amparo de que carecem. Se o poder público não estiver atento, os problemas da cidade crescerão mais rápido que a capacidade de solução. E, oportuno mencionar-se, administrações públicas desatentas não conseguem dar a sua contrapartida nem na infra-estrutura que lhe compete face a grandes projetos da iniciativa particular.
O exercício da boa gestão pública não é caminhar na caudal do desenvolvimento (e, muito pior, criar-lhe entraves) e sim paralelamente e no mesmo ritmo. Um descompasso não só aumentará os bolsões das exigências sociais paralelas como poderá frear a corrida desenvolvimentista tracionada pelo empreendedor privado. Londrina, que corre o risco de perder o título de terceira mais importante cidade do Sul do Brasil, não pode permitir-se frouxidões e adormecimentos na esfera do poder público.

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