São raros os casos, no Brasil, de que alguém que detenha poder e influência seja condenado a ressarcir prejuízos que tenha causado, por corrupção, quebra de compromissos ou outros atos de irresponsabilidade contra cidadãos. Por isso chegou a causar surpresa a determinação da Justiça de mandar para leilão dois valiosos bens do megaempresário e ex-deputado federal Sérgio Naya, para cobrir indenizações pelo desabamento do edifício residencial Palace 2, no Rio de Janeiro. O que deveria ser um ato comum, converte-se em exceção, daí a perplexidade, embora o alívio por saber-se que os danos serão cobertos, aos menos os materiais, já que as oito mortes ocorridas são casos irrecuperáveis.
Os bens são dois hotéis, cujos valores são estimados em R$ 70 milhões. Naturalmente que poderá haver recurso contra a decisão, embora dificilmente ocorra o efeito suspensivo sobre o leilão. E se os dois imóveis forem insuficientes, outros bens de Naya serão leiloados. Outra surpresa é que o rico e aparentemente intocável empresário está preso e todo o seu patrimônio indisponível.
Enquanto isso ocorre, uma infinidade de outros processos idênticos se arrasta, havendo casos de denunciados que ficaram presos algum tempo e de outros apenas poucos dias, porém sem haverem coberto os prejuízos causados pelos seus roubos e falcatruas. A população, que é credora dos débitos da corrupção quando os envolvidos são administradores ou agentes públicos, raríssimas vezes viu os grandes ladrões do erário devolverem o que roubaram.
Os processos caminham lentos até porque a elasticidade da legislação brasileira o permite e geralmente dão em nada, como sentencia a voz popular em seu desencanto. Bons defensores conseguem livrar das grades e de ressarcimentos qualquer um que tenha dinheiro para bancar e deseje ir às últimas consequências, porque as brechas da lei dão condições. Daí a razão porque só os mais fracos vão presos e têm de pagar a conta, até onde puderem. O desfecho do caso de Sérgio Naya se apresenta surpreendente, até pela rapidez.
Aqui em terras paranaenses os desmandos governamentais foram muitos e ressoam pela imprensa, mas ainda não se assistiu a ninguém devolvendo os valores subtraídos do povo e nem há indício de que isso venha a ocorrer. A ausência formal das provas dá a garantia da impunidade, embora não exista prova maior do que o dinheiro desaparecido. Se uma soma dilui-se como fumaça, basta exigir contas de quem cuidava do cofre. Mas não é assim que funciona. E com esse estímulo a caravana política vai marchando, no mesmo compasso.

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