Muito aleatória a justificativa do presidente Fernando Henrique Cardoso de que vetará o aumento do salário mínimo para não prejudicar obras prioritárias do próximo governo em seu primeiro ano de mandato. FHC certamente nem acredita que o sucessor seja o candidato de seu partido, único motivo que, supostamente, o levaria a interessar-se pela garantia de governabilidade do presidente que assumirá em janeiro. Outro argumento inconsistente de FHC é o de que a verba orçamentária destinada ao ônus do aumento do mínimo, aprovada pelo Congresso, prejudicaria o programa de investimentos do novo governo, quando ele próprio pouco se interessou com isso, em seu mandato, já prestes a findar-se.
Os parlamentares desejam o aumento do piso salarial para R$ 240, a partir de abril do próximo ano, mas FHC e sua equipe econômica argumentam que isso seria mais um elemento de incerteza no cenário futuro da economia. Pergunta-se então que governo foi este que, por conta de uma simples elevação de 20% do salário mínimo, teme um abalo econômico. Uma administração que FHC tanto apregoou como sólida em seus fundamentos econômicos não pode amedrontar-se com tão pequena majoração num ganho já tão baixo de trabalhadores e aposentados comuns, mesmo com a influência que terá sobre o orçamento previdenciário. Foi-se bastante o sacrifício nacional em forma de recessão, desemprego e a consequente violência urbana para que agora não se possa começar a olhar melhor para o salário mínimo.
As razões, já se sabe, são as de sempre: retirar a moeda da mão do consumidor, pelo temor atávico de incrementar-se a inflação pela injeção de mais dinheiro no meio circulante e o natural aumento das compras. O governo não considera que o bom salário é o melhor investimento e que é o consumo que alimenta a produção e faz mover toda a engrenagem do desenvolvimento. E não há consumo sem salário substancial, e muito pior sem salário algum motivado pelo desemprego. Aumento salarial tem também as suas implicações, pois significa para o empregador sempre o dobro, por conta dos encargos sociais confiscados pela voracidade do governo gastador e desperdiçador e, no geral, corrompido. Mas o anunciado veto ao aumento do mínimo é mais uma medida recessiva dentre as tantas adotadas nos oito anos deste governo.

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