Seja Luiz Inácio Lula da Silva o mais provável , seja José Serra, o próximo ocupante do trono presidencial enfrentará dificuldades sem conta, e já de início poderá frustrar expectativas populares. Porque os cidadãos, ante tantas promessas de campanha, desejam providências imediatas e as soluções não surgem tão facilmente. As costuras políticas que ora se fazem irão exigir contrapartidas e, enquanto elas forem relacionadas com o atendimento de metas de campanha daqueles que se aliam, muito bem. Mas muitas vezes as exigências são mais comprometedoras. As opções, então, serão atender e sujeitar a imagem do governo a riscos; ou dizer não e criar dissidências, que dificultarão a governabilidade.
O sistema de inter-relação de poderes exigirá competência para dialogar com as oposições dentro do Congresso, ou os projetos que o governo desejará ver aprovados começarão a ficar emperrados pelos labirintos do universo parlamentar. A população fará mais exigências de um governo Lula, justamente pela esperança de revolucionárias mudanças que sempre figuraram no pregão do ideário político do Partido dos Trabalhadores. E também as vistas dos observadores internacionais estarão mais atentas sobre o que irá fazer um governo petista. Não à toa os maiores jornais do mundo publicaram em destaque, em suas primeiras páginas, a vitória de Lula no primeiro turno. Porque o Brasil interessa mais lá fora do que supõem os próprios brasileiros.
Se nada será fácil, também não é verdade absoluta como querem certos ''cientistas'' políticos que as soluções serão impossíveis a curto prazo. Porque se houver boas proposições e boa vontade dos congressistas em discutir e acatar programas de reforma, com agilidade e sem espera de vantagens partidárias ou individuais, será possível consertar muita coisa neste país, e mais rápido do que se pensa. Se for Lula o presidente, o PT deixará de ser pedra, no que foi competente, e passará a ser vidraça, e já se imagina que desentendimentos possam ocorrer dentro do próprio partido, que se divide em várias alas, entre elas a ultra-radical. Não se surpreenda o povo se o próprio PT se insurgir, em certas circunstâncias, contra o próprio governo petista.
O futuro Presidente, além da necessária visão para formular propostas consistentes de mudança, e agir com ousadia, precisará saber negociar harmonicamente com o Congresso, porque sem apoio parlamentar onde será preciso, constantemente, fazer concessões um governo cairá em desgraça. A nação já viveu isso com Jânio Quadros, então que não seja por falta de exemplo.

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