A moradia é direito universal e consagrado de todo o cidadão, mas no Brasil, além da insuficiente disponibilidade de unidades residenciais para atender a um grande contingente populacional, que vive em cortiços e em condições sub-humanas, ainda impera um perverso e impune sistema de exploração sobre aquele mutuário que ingressa no financiamento da casa própria. Então, o que aparentemente é um privilégio, passa a ser uma condenação, porque o morador cai nas garras do regime financeiro e não mais consegue desgarrar-se, a menos que, por cair na inadimplência, acabe vendo o imóvel ir para leilão. Por trás dessa perversidade estão os bancos financiadores, que cobram juros além dos permitidos pelo Sistema Financeiro da Habitação e se recusam a renegociar a dívida com os devedores em atraso, preferindo, naturalmente, o recurso mais rendoso do leiloamento.
Quarta-feira este jornal noticiou que o volume de leilões de imóveis financiados, no Paraná, teve um aumento de 100% em junho, em comparação com o mesmo período do ano passado. O que ocorre em nosso Estado é geral em todo o País, a demonstrar que a situação econômica dos cidadãos piorou e que o protecionismo aos organismos financiadores continua. A Associação Nacional dos Mutuários afirma que o elevado juro cobrado pelos bancos é a principal causa da inadimplência. E é também da entidade a afirmação de que essas instituições se recusam a acordos de renegociação de dívidas, embora o interesse do mutuário em pagar. A entidade tem agido, e até onde pôde conseguiu a suspensão de leilões, mas o certo é que os bancos são poderosos e não dão possibilidade de defesa ao mutuário.
Os casos são todos semelhantes a um deles, citado neste jornal: o cidadão fez um financiamento de R$ 62 mil, já pagou uma parte, com prestações de R$ 1.759, mas o saldo devedor é de R$ 82 mil. Esse mutuário afirma que lhe disseram, na assinatura do contrato, que poderia dilatar o prazo se o desejasse, mas quando quiz fazê-lo o banco se recusou. A Associação dos Mutuários afirma que o SFH permite juros anuais de 12%, mas que os bancos estão cobrando 16%. Não se compreende o conceito de segurança nacional se, no caso da política habitacional, é permitido esse declarado e impune assalto às famílias que se habilitam ao direito de morar e financiar a compra da moradia. O abuso vigora desde muitos anos e ninguém ousa colocar um freio nessa arbitrariedade.

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