OPINIÃO DA FOLHA - A importância da agricultura
Reportagem sobre a atividade rural brasileira, publicada na Folha Rural de ontem, mostra um descompasso entre a agricultura familiar e a agricultura comercial, de escala. E demonstra que o agricultor continua sem o suficiente apoio governamental, não adota plenamente a tecnologia, paga juro alto pelo financiamento, depende muito das condições do tempo e tem renda baixa, pelo elevado custo da produção. Os métodos da lavoura familiar são ainda primitivos, pois 68% das propriedades não têm tratores e pouquíssimos utilizam o sistema de irrigação, só se valendo das chuvas. E no entanto no caso específico do Paraná a agricultura tocada pelas famílias é responsável pela produção da maior parte da comida que chega à mesa da população: 71% do feijão, 66% do arroz, 77% do tomate, 62% do leite, 76% da carne de aves, 69% da carne suína, 56% dos ovos e 68% da mandioca.
Tudo isso para um renda média, de cada produtor, de dois salários mínimos mensais. O resultado, em meio a essa abundância de alimentos, é uma baixa qualidade de vida. A moradia é de péssimo padrão, na maioria sem eletricidade, sem sanitários internos e sem água potável. Por isso os filhos adultos não querem continuar na atividade dos pais e debandam para os centros urbanos. Muitos vendem as terras e há uma clara tendência para a concentração de propriedades. O País, como se escreveu ontem, é potencialmente rico e sinaliza com segurança, mas há muito ainda por fazer em favor dos pequenos agricultores, porque o governo não tem um projeto para eles.
Por outro lado, embora ainda enfrentando, igualmente, grandes dificuldades, a agricultura extensiva domina técnicas que podem ser comparadas às mais avançadas do mundo e tem os melhores índices de produtividade. Apesar da resistência da área econômica governamental para expansão do crédito rural e só agora o ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, está conseguindo impor-se e obtendo alguns êxitos essa agricultura ainda capengante e desassistida consegue produzir em torno de 100 milhões de toneladas/ano de grãos e proporcionar um superávit de 19 bilhões de dólares na balança comercial.
É, pois, a agricultura que segura o Brasil e mantém o nível do produto interno bruto, que não é elevado mas seria pior sem o suporte da produção agrícola. Assim mesmo a equipe econômica do governo é avessa a investir na atividade rural, e o próprio presidente Fernando Henrique, nos seus oito anos de mandato, nunca visitou lavouras e nem se reuniu com o empresariado agrícola, ao menos para mostrar reconhecimento. Preferiu os salões elegantes e as tertúlias diplomáticas no exterior, onde ninguém lhe faz reivindicações.
Atente-se que os preços agrícolas foram os que menos cresceram durante o governo de FHC e, por via dessa condição, a agricultura foi o setor que acabou aplacando o agravamento da miséria, justamemte pelo aumento da oferta de alimentos baratos o denominado ''mal que vem para o bem'', mas ainda aí presente a ação rural. Tem faltado respeito do governo para com a agricultura, e os candidatos à Presidência também não estão dando ênfase a ela em seus discursos de campanha, porque todos eles, sem exceção, desconhecem as coisas do campo, porque sempre viveram em centros urbanos e, portanto, imaginam que o Brasil é apenas aquele das cidades. Se a área oficial der um pouco de atenção ao campo, a resposta será prodigiosa e fará rico também o povo deste país já por natureza riquíssimo.





