Da mesma cidade-porto onde agora a Seleção Brasileira de Futebol classifica-se para as oitavas de final, partia no dia 18 de junho de 1908 um navio de imigrantes japoneses, rumo a terras do Brasil. Muitos deles acabariam vindo para o Paraná e especialmente Londrina, que no início dos anos trinta iniciava uma nova epopéia de colonização neste país. Entre esses pioneiros que naquele momento histórico deixaram o porto de Kobe encontravam-se também mulheres, na qualidade de esposas e mães de filhas pequenas. Junto a estas, Tomie Nakagawa, então uma criança de colo e que agora aos 95 anos ainda vive e mora em Londrina. Ela é a única que existe dos 781 passageiros daquela célebre viagem.
Esta ilustre senhora, que mereceu reportagem deste jornal, ontem, ainda conta histórias e está assistindo pela televisão aos jogos da Copa do Mundo, ao tempo em que vê pessoas e imagens de seu Japão natal. E fazendo questão de dizer que torce pelo Brasil. Ela é a história viva sendo reproduzida e acrescida pelas suas próprias palavras, podendo ser observada e sentida, pelo olhar, pelos ouvidos e pelo toque. É o passado fazendo-se presente, nesta região cujos figurantes históricos da primeira hora ainda marcam presença na vida da cidade. Tomie é uma preciosa jóia que os descendentes da primeira à quarta gerações, e muitos já da quinta, ainda podem ver e tocar.
Na última festa comemorativa da imigração japonesa, que se realizou em Rolândia, Tomie recebeu especial homenagem do presidente Fernando Henrique Cardoso, que veio para a solenidade e desceu do palanque oficial para cumprimentar a anciã. Ela brinca que nasceu no Japão e é brasileira, e que seu irmão que nasceu no Brasil é japonês, porque passou a viver lá. Tomie posou para o fotógrafo do jornal segurando uma bandeira do Brasil e disse que, por ser brasileira, está diante da TV torcendo pela pátria que a acolheu. Um fato corriqueiro para 170 milhões de patrícios mas muito especial tratando-se de uma pessoa como esta, de origem japonesa e que dedicou sua vida inteira para o Brasil.
Aqui Tomie Nakagawa trabalhou na lavoura, casou-se e teve 7 filhos, 30 netos e bisnetos de que perdeu a conta. Deixa uma herança de descendentes, de trabalho, de exemplo, de patriotismo, de resistência física e sobretudo de amor ao Brasil, como demonstra. São muitos os pioneiros dos primeiros momentos, e de diversas procedências – pelo menos três centenas deles ainda vivos – aos quais esta região tanto deve, mas Tomie tem uma história peculiar, por ser a última pessoa viva entre os passageiros da primeira leva de imigrantes japoneses que singraram o oceano, durante 55 dias, para chegar ao Brasil, dele desfrutar e aqui deixar a sua contribuição.

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