Finda a ditadura militar que irrompeu na madrugada de 31 de março de 1964 e se sagrou vitoriosa 8 horas depois, portanto já no 1º de abril, nem a própria oficialidade desejou rememorar a data nos anos que se seguiram. Tal deve ter acontecido por desencanto com o baixo proveito desse movimento, que se consubstanciou num regime de exceção de quase 20 anos, com muita prisão, tortura e morte, sem proporcionar ao povo os benefícios sociais que seria de esperar, considerando o pleno poder do sistema para tudo fazer e desfazer e durante tanto tempo.

Hoje (ou amanhã, ''dia da mentira'', para os detratores) completam-se 40 anos do episódio e constata-se que o Brasil continua uma nação convulsionada. Veja-se o caso da violência urbana, da ação criminosa dos narcotraficantes, das invasões de terras e das mazelas decorrentes do desemprego. Se houve saltos de crescimento em muitos setores, agravou-se a miséria social, até pelo aumento da população, e o povo mantém o mesmo desencanto com o governo, tal qual ocorria quatro décadas atrás. Revoluções e contra-revoluções e anseios de assumir governos parecem acontecer apenas pela disputa do mando.

Certo é que a população aplaudiu a tomada do poder pelos militares em 64 porque imperava no País um regime governamental anárquico, provocado pelas consequências da abrupta renúncia do presidente Jânio Quadros no fatídico 25 de agosto de 1961. Jânio, guindado ao poder pelo voto da maioria esmagadora dos brasileiros, renunciou porque não contava com o apoio do Congresso e não soube negociar com os deputados (as conhecidas barganhas e conchavos) e engendrou a renúncia imaginando que o povo o reconduziria ao poder, através de uma gigante manifestação como fora a das urnas, mas tal não ocorreu. Ele choraria essa decepção, ao pronunciar: ''Congresso canalha'' (por aceitar de pronto a renúncia), ''os militares me decepcionaram'', ''não vejo o povo nas ruas''. Incrível que pareça a comparação, a nação vivia com Jânio momentos de saudável expectativa de redenção nacional, a mesma expectativa dos brasileiros com o governo Lula em seu primeiro ano uma esperança que já se esvaiu.

O vice-presidente João Goulart não gostava dos ''generais gorilas'' e estes não gostavam dele, só sendo-lhe permitido assumir se aceitasse não ter poderes plenos, pela via de um parlamentarismo de emergência, que foi implantado mas não vingou, porque o plebiscito votou contra. Com a restauração do presidencialismo, Jango retornou supostamente fortalecido, mas sua derrubada pelos militares não tardaria porque as engrenagens do poder rodavam frouxas e aconteceu sem um tiro sequer. O general Humberto de Alencar Castelo Branco, um dos conspiradores, assumiu o governo, no que veio sendo sucedido a cada quatro anos por outros generais, até o início dos anos 80, e incrivelmente por um processo com marca de democrático, porque o nome indicado pelo regime era referendado pelo Congressso á leia-se, queira-se ou não, o povo no poder, porque havia um partido de direita e um de esquerda Arena (este, lógica e estrategicamente, mais numeroso) e MDB. Assim, passava-se ao mundo desinformado a noção de um sistema eleitoral legítimo.

Acontecimentos destacados (e nem todos necessariamente benéficos) do período dito revolucionário foram o avanço das telecomunicações; um tempo (curto) de crescimento econômico, o denominado ''milagre brasileiro'' e cujo pai era o superministro Delfim Neto; o advento da Rede Globo, que assumiria grande poder e até hoje tem pesada influência em decisões governamentais e no comportamento dos brasileiros; a implantação das usinas nucleares de Angra dos Reis, sucata desovada pelos alemães e repassada a outro ''Alemão'', como era chamado pelos íntimos o general-presidente Ernesto Geisel; o início da construção da rodovia Transamazômica, que iria do Maranhão ao Acre mas perdeu-se na floresta, sepultando uma fortuna até onde chegou; a ponte Rio-Niterói; os metrôs de São Paulo e Rio; o desenvolvimento da Embraer, que na época produziu seu primeiro jato.

Um dos aspectos negativos da ditadura foi ser uma ditadura, com todas as suas desastradas consequências. Seguiram-se a truculência que vigorou de parte a parte o sistema e as esquerdas armadas, igualmente violentas, sequiosas do poder e sem projetos governamentais, embora desejassem ser governo; prisões arbitrárias contra políticos e jornalistas; delações, corrupção no corpo do sistema, com chantagem sobre a classe empresarial, pois os militares acenavam com a garantia de conter o comunismo, terror da época e razão primordial do golpe militar, que teve inspiração e apoio dos Estados Unidos.

O perigo vermelho, que dominava nações em metade do mundo, visava detonar o capitalismo e socializar tudo, tirando dos ricos e dando aos pobres, na verdade apenas um apelo de sensibilização das massas assalariadas. Porém o maior prejuízo causado pelas duas décadas de ditadura militar foi a cessação das vozes das multidões, a castração das lideranças políticas emergentes, a atrofia da formação de líderes que viriam no futuro, a quebra do salutar exercício da democracia (a democracia política e a econômica), males dos quais ainda sobram reflexos em nossos dias, embora essa origem já nem seja identificada pelos brasileiros do pós-ditadura.

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