Não haveria mal, no Brasil, se o número de ricos aumentasse e o número de pobres viesse diminuindo na mesma proporção, até que houvesse um nivelamento e todos fossem, senão ricos exatamente iguais, ao menos uma grande classe média com padrão mais ou menos semelhante. Tal não é uma utopia, porque em inúmeros países do mundo assim é. Japão por exemplo, onde mais de 85% da população constitui uma classe homogênea de bom nível de vida, com poder aquisitivo para tudo comprar, do sapato ao automóvel e à moradia, ainda sobrando para viagens anuais de férias pelo próprio país e ao exterior, sem falar de todos os benefícios de saúde, educação e seguridade social. Os restantes 15% são ricos e uns poucos pobres, estes assim mesmo assistidos e fora da faixa de miséria. Na Noruega, por exemplo, já não existe problema social de nenhuma ordem, e não apenas lá, mas em outras tantas nações do mundo onde a população praticamente não conhece dificuldades quanto aos confortos materiais do bem viver.

Por ricos, no Brasil, são entendidas as pessoas com renda mensal superior a R$ 11 mil, os mais ricos com R$ 23 mil e os super-ricos com R$ 40 mil para cima, sem limite. O que estarrece é ler que o número de brasileiros pobres cresceu nos últimos vinte anos e que aumentou a proporção dos ricos, significando que o bolo da riqueza está maldividido. E não só o contingente dos pobres avolumou-se em tamanho, como expandiu-se o dos miseráveis, que estão abaixo da linha de pobreza. Entre os ricos estão também funcionários públicos, justamente aqueles privilegiados com gordos salários ou aposentadorias. Os mais ricos, que há uma década distanciavam-se 10 vezes à frente dos de renda média, agora subiram esse ranking para 14 vezes. Na região sudeste, puxada por São Paulo, o número de famílias ricas também aumentou, enquanto os pobres não saíram do lugar em sua condição, havendo aumento do número deles, até pela expansão populacional e do desemprego.

Estes números mostram que o povo brasileiro, embora pacífico no geral e ainda conseguindo viver em estado de relativa alegria, é um povo sofrido, pela pouca renda, que o priva de usufruir dos bens disponíveis mas que não lhe chegam ao alcance; ou pela renda nenhuma, caso dos que não encontram trabalho e não comem suficientemente, vivendo em lastimável estado de penúria. Esta realidade está aí, fragrante aos olhos dos governantes, das instituições públicas e privadas e da sociedade em geral, a demonstrar o aspecto perverso que impera e que, na verdade, sensibiliza a muito poucos. E se a fome atinge grande parcela da população, não é por falta de produção de alimento, porque o Brasil é campeão nessa área e grande exportador. Há excedente em suficiência para alimentar a todos e com grande sobra, mas não ocorre a equitativa distribuição, pela limitação de poder aquisitivo, que de sua vez é gerada por baixos salários ou por ganho nanhum. Fatos que não exaltam esta nação dita cristã, mas que, ao contrário, a denigrem e a maculam com a marca da insensibilidade.

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