Opinião - O gargalo da distribuição de renda
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 20 de janeiro de 1997
José Eli da Veiga 
O pivô da distribuição de renda é o custo da alimentação. Esta é uma lição da história econômica de todas as nações do Primeiro Mundo, que, infelizmente, ainda não foi completamente assimilada por nós. Principalmente, porque a constante divulgação de índices de preços ao consumidor tende a impor a idéia de um único custo de vida, em vez de vários. Enquanto metade do custo de vida de quem ganha R$ 200 é diretamente determinado pelos preços dos alimentos, apenas 15% do custo de vida de quem ganha R$ 2.000 são por eles influenciados. Se a comida fica mais barata, a renda real dos pobres aumenta, quase não afetando a dos ricos. Isso também vale para outros itens de consumo popular, mas nenhum pesa tanto quanto a alimentação. O vestuário, por exemplo, tem quatro vezes menos importância.
Quando os preços dos alimentos sobem menos (ou descem mais) que os do conjunto dos bens de consumo, o custo de vida dos pobres diminui e a renda é distribuída pelo aumento real dos mais baixos ganhos. Se o mesmo acontecer com passagens aéreas, por exemplo, será o custo de vida dos ricos que diminuirá, sem que isso altere o custo de vista do povão. E a renda vai se concentrar pelas vantagens reais dos que auferem altos rendimentos.
Nos últimos 40 anos, a diminuição relativa do custo da alimentação foi um fenômeno muito raro e passageiro no Brasil. Na verdade, só ocorreu nas conjunturas de 1957/58 e de 1967/71, o início do milagre. Antes mesmo da odiosa escalada da década perdida, o alto patamar do período 1960/64 já havia sido igualado no final dos anos 70 e superado em 1980. E o custo da alimentação só voltou a atingir níveis inferiores ao referido patamar em 1996.
O atual barateamento alimentar começou em 1990, após o ápice da carestia. Em 1989, o custo da alimentação havia quebrado todos os recordes: ultrapassara em mais de 25% a referência de 1980. Com a queda iniciada em 1990, o custo da alimentação permaneceu até 1993 em um nível apenas 10% superior ao de 1980. Tornou a subir até novembro de 1994, quando teve início a esplêndida queda livre dos últimos 25 meses.
Na verdade, essa queda livre dos últimos 25 meses não abrange o custo da alimentação fora do domicílio. Este continuou aumentando até maio de 1995 e sua redução posterior foi muito branda. Comer fora em maio de 1995 custava quase 40% mais caro que em dezembro de 1993. Em dezembro de 1996 custava quase 25% mais caro que em dezembro de 1993.
Quanto ao custo da alimentação no domicílio, é importante observar as diferentes evoluções dos preços dos alimentos in natura (verduras, legumes, frutas, ovos), semi-elaborados (arroz, feijão, carnes, pescados, leite) e industrializados (massas, óleos, enlatados, condimentos, biscoitos, derivados da carne e do leite, etc).
A diminuição
do custo da alimentação
foi um fenômeno raro
e passageiro no Brasil
Em meados de 1994, os preços dos semi-elaborados já estavam cerca de 10% abaixo do nível de dezembro de 1993. Tiveram altas em outubro e novembro de 1994, mas a subsequente queda livre os trouxe agora a um nível 25% inferior a dezembro de 1993. Para os industrializados a queda livre começou antes. Vem de julho de 1994, quando seus preços estavam quase 15% acima do nível de dezembro de 1993. Voltaram a esse nível em outubro de 1994 e agora estão quase 20% abaixo. Já os preços dos produtos in natura subiram de forma assustadora até março de 1994, quando chegaram a estar 60% mais caros que em dezembro de 1993. A queda livre só teve início em abril de 1994 e não foi suficiente para barateá-los. O mínimo atingido em dezembro de 1996 ainda foi superior a dezembro de 1993.
Como o consumo destes produtos in natura corresponde a apenas um sexto do custo da alimentação no domicílio, este é essencialmente determinado pelos cinco sextos correspondentes aos industrializados e semi-elaborados. Por isso, comer em casa em março de 1995 custava o mesmo que em dezembro de 1993 e agora custa quase 20% menos. O atual custo da alimentação no domicílio está em níveis semelhantes aos de meados dos anos 70 e aos de meados dos anos 50. Se cair mais uns 10% voltará ao nível dos primeiros anos do milagre. E caindo mais um pouco poderá voltar ao piso dos anos 40.
Para tanto, três pontos merecem atenção. Primeiro, lembrar que o recente barateamento começou em 1990, quando a demanda por industrializados e semi-elaborados passou a ser superada pela oferta decorrente da abertura comercial. Segundo, notar que esse movimento só se aprofundou depois das eleições de 1994, quando a fé na estabilidade da moeda passou a inviabilizar movimentos especulativos em inúmeros elos do agribusiness. Terceiro, perguntar se não é melhor investir no fortalecimento da agricultura familiar do que continuar gastando US$ 2,333 bilhões em importações de milho, algodão, trigo e arroz, como aconteceu em 1996.
- JOSÉ ELI DA VEIGA é livre docente do departamento de Economia e presidente do programa de pós-graduação em ciência ambiental da USP.


