A notícia de que já se está vendendo carro novo em até 90 meses de prazo, e a juros mais baixos, tem aspectos positivos e negativos. O positivo é que permite a toda pessoa com salário médio adquirir carro novo. O negativo é que isto sobrecarrega as ruas e estradas, aumenta a poluição e o número de acidentes e onera a vida dos cidadãos pelo custo do investimento, pelo tempo de endividamento (8 anos pagando), pelo custo de manutenção, impostos, pedágios, etc. Com tanto tempo endividado o comprador pode ficar engessado e inviabilizar outras compras.
Alguns analistas temem que possa ocorrer uma crise econômica como a que afetou os Estados Unidos recentemente, por inadimplência em cadeia que possa emperrar a economia face à exagerada facilitação do crediário. Porque nunca se ofereceu tanto crédito quanto agora no Brasil, e não apenas para compra do automóvel. As grandes lojas já se converteram em bancos, porque é bom negócio vender a prazo pela rentabilidade dos juros. Isto poderá resultar num desequilíbrio futuro porque o comprador perde a noção de tempo e do volume do débito. No caso do veículo, em 8 anos o bem adquirido já está velho, reclamando manutenção ou a necessidade de adquirir outro, e assim o sufoco do endividamento persiste.
Há países desenvolvidos, como o Japão - onde os veículos são baratos e todos podem adquiri-los - em que muitos cidadãos e famílias não compram carro porque as ruas dos bairros onde moram são estreitas, não permitindo estacionamento noturno, e porque ocupar espaço com garagens é um contra-senso com terrenos tão minúsculos e as moradias também. No lugar de uma ou duas garagens, a preferência é por aumentar os espaços internos da casa.
Estudos futuristas já adiantam que chegará um dia em que as grandes cidades proibirão o uso do automóvel em certos dias e horários (como já se fez na capital paulista), de forma a despoluir o ambiente de ruídos, de gases venenosos e da presença da frota circulando que dificulta a liberdade dos pedestres. Não é preciso ser visionário para perceber que o transporte do futuro será predominantemente coletivo, como ônibus, metrôs e trens de grande velocidade, com os trens-bala, que atingem até 220 quilômetros horários, a preço econômico e com luxo e conforto de uma aeronave.
O Brasil, nessa euforia de carro próprio - uma ambição de todos os que não o possuem - trafega na contramão da tendência mundial. Porque em futuro não muito distante o investimento terá de ser em transporte de massa, com opção pelas ferrovias.

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