Ontem como hoje
Roberto Requião
‘‘A globalização nada mais é do que uma palavra que nós, os americanos, inventamos para abrir e conquistar mercados, especialmente os mercados dos países menos desenvolvidos.’’ Esta frase, de um dos papas da tal globalização, reduz aos devidos e estreitos termos esse movimento que alguns deslumbradores provincianos consideram como a etapa mais elevada da civilização. Lester Thurow, com o pragmatismo de quem não costuma dourar ou romancear a realidade, retira da globalização todo o charme, todo o caráter de modernidade e avanço, que alguns imaginam existir nessa luta desigual e cruel pelo mercado e pelos consumidores.
O que vemos hoje é o que vimos já ontem: os chamados países centrais ou desenvolvidos marchando impiedosamente sobre os países periféricos, impondo seus produtos, apossando-se de matérias-primas, tirando vantagens de nossa mão-de-obra barata, e aproveitando-se de governantes basbaques e submissos, como os que desgraçadamente nos dirigem.
Para nós, do Brasil, o que significou a globalização? Ela resultou num violento processo de desindustrialização. A abertura irresponsável do mercado, com o fim das restrições à entrada de produtos importados, arrasou a indústria nacional. E que não me venham dizer, aqueles idiotas apressadinhos de sempre, que essas indústrias sucumbiram porque não eram competitivas. Tomem como exemplo o setor de autopeças. Nesse segmento possivelmente tenhamos chegado a um avanço tecnológico comparável ou superior ao dos países do assim chamado Primeiro Mundo. Foram raras as empresas que sobraram para contar a bela história do desenvolvimento das indústrias de componentes automotivos no Brasil. Mais de 3 mil empresas do setor ᖠgrandes, médias e pequenas – tiveram que fechar as portas, colocando nas ruas perto de 150 mil operários altamente especializados.
As que escaparam da destruição, como a Metal leve, a Cofap e a Freios Varga, respeitadas no mundo pela excelência de seus produtos, foram engolidas pelas gigantes multinacionais do setor. Diga-se, essas três empresas, acabaram absorvidas quando elas próprias instalavam-se na Europa e nos Estados Unidos.
Da mesma forma, foram notáveis os nossos avanços na área eletroeletrônica, de energia, de alimentos, têxtil, de produtos aeronáuticos, de produtos químicos. E assim por diante. Hoje nenhum desses setores continua em mãos de empresários nacionais. Pior ainda: uma das primeiras providências das multinacionais que se apossaram de nossas indústrias e de nossas estatais foi a de fechar os centros de pesquisas dessas empresas. Hoje, como acontecia dezenas de anos atrás, somos obrigados a importar tecnologias, projetos, despendendo milhões de dólares em licenciamentos. Muitas vezes, como acontece no setor de autopeças e de produção de energia, estamos importando o que nós mesmos desenvolvemos aqui.
Desindustrialização, desnacionalização, destruição dos centros de excelência de pesquisas e desenvolvimento de projetos, neocolonização, volta à condição de exportadores de matérias-primas e de produtos primários. Esse é o resultado da inserção do Brasil no dito mercado global. Sim, é claro, num mundo sem fronteiras, integrado, tecnologicamente moderno, um mundo assim é um avanço. No entanto, o deslumbramento, o provincianismo, a submissão de nossos governantes está promovendo a entrada do Brasil neste mundo pela porta de serviço.
A diferença de atitudes em relação à ultima grande crise econômica mundial, aquela que abateu os tigres asiáticos, o México, o Brasil e a Argentina, por exemplo, é esclarecedora. Enquanto países como a Coréia, as Filipinas e a Malásia mandaram às favas as receitas do FMI e buscaram caminhos próprios para enfrentar a crise, o Brasil não só comprou as receitas do Fundo como submeteu a nossa economia ao governo direto do capital financeiro multinacional. Parte dos tigres está saindo da crise apresentando um crescimento econômico consistente, nós estamos vendo todos os nossos indicadores apresentarem resultados negativos.
Antes diziam que não progredíamos, que não avançávamos, que os nossos produtos eram tecnologicamente atrasados, que a chamada reserva de mercado impedia que acompanhássemos a marcha da História. Pois bem, todas as portas foram escancaradas, todas as barreiras alfandegárias reduzidas a nada, e daí? Que ganhamos? O direito a uma macarronada com a melhor massa e o melhor molho italianos? Não muito mais que isso.
A abertura, como já referi, aniquilou a indústria e interrompeu o notável processo de avanço tecnológico de alguns setores. De outro lado, as multinacionais que aqui se instalaram, com todo apoio dos governos federal e estaduais, vieram apenas em busca de consumidores, produzindo para o ainda pouco exigente mercado nacional. Elas não estão acrescentando e incorporando à vida nacional nenhum avanço tecnológico significativo. E amanhã, quando o nosso mercado deixar de ser atrativo, elas simplesmente batem asas, não deixando nada de significativo para trás.
Ontem, eles vinham, extraíam ouro, prata, madeira, exauriam a terra agricultável para produção de excedentes exportáveis e deixavam para os nativos espelhos e miçangas. Hoje eles fazem tudo igual. Só que dão a isso nomes sofisticados e contam com o deslumbramente dos nativos, que se sentem engrandecidos com os adereços que ostentam por aí, desfilando toda sua pobreza de espírito.
- ROBERTO REQUIÃO é senador pelo PMDB/PR.

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