Onde só se discute as próprias irregularidades
É irrelevante para os cidadãos o que resultar de uma acareação (perante a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado) entre a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e a ex-secretária da Receita Federal Lina Maria Vieira. Porque não é novidade que o presidente Lula e seu staff tudo têm feito para poupar o senador José Sarney e seu filho, o empresário Fernando Sarney. A ministra nega que tenha solicitado à então secretária que acelerasse as investigações contra Sarney (filho), o que teria sido interpretado como uma forma de encerrá-las rapidamente, assim evitando mais desgaste para a família Sarney.
O presidente Lula não escondeu em momento algum seu interese em salvar Sarney seu forte aliado peemedebista da avalanche de denúncias que se abate sobre ele, e naturalmente a ministra opera em consonância, independente de saber-se o que ela realmente tenha pedido à secretária, se é que pediu.
Todas essas especulações são perda de tempo e atendem mais a interesse político-eleitoreiro do que propriamente a causa da moralidade. Dilma é candidata potencial do PT à Presidência da República e o objetivo é enfraquecê-la. No momento, pela pesquisa Datafolha, ela está em segundo lugar (com 16%), abaixo do tucano José Serra, que tem 37%. A esta altura da corrida eleitoral já declarada, embora ainda longe das eleições acusações e defesas fazem parte do jogo político. Lula sai em socorro de sua candidata e diz que essas coisas (o pedido atribuído a Dilma) não fazem parte de sua personalidade. As oposições querem que Lina Vieira explique o que sabe sobre as razões de sua demissão e sobre manobras contábeis na Petrobras, denunciadas por ela. Foi sintomático o imediato afastamento da secretária. Mas parece algo difícil serem aprovadas tanto a acareação quanto uma convocação da ministra para esclarecer os fatos perante a Comissão, porque seus membros são na maioria da base aliada. Denúncias de qualquer espécie devem ser apuradas, mas nos parlamentos em Brasília gasta-se mais tempo tratando de irregularidades dos próprios parlamentares, algumas vinculadas a relações com o Governo.
Reverte-se assim a função constitucional das duas Casas do Congresso, que é, além de criar e reformular leis, fiscalizar o funcionamento do sistema governamental em nome da sociedade que representam. Mas nos últimos anos elas têm se convertido em cenário de acusações, contra-acusações e denúncias de irregularidades em seu próprio meio. Normal se se tratasse de um caso esporádico, mas não de forma permanente, como tem ocorrido.





