Se entendermos ideologia como um ‘‘sistema articulado de idéias’’, que no caso da política é colocado dogmaticamente e serve para distinguir um grupo ou partido dos demais, chegaremos a conclusão de que nem a maioria dos nossos políticos nem os partidos possuem coerência ideológica. Para testar essa observação em termos de realidade, basta que observemos os atuais programas eleitorais gratuitos. Veremos, então, que o discurso dos diversos candidatos e seus respectivos programas de governo apresentam uma impressionante padronização, uma uniformidade tal que é impossível saber-se quem é de direita, de esquerda ou de qualquer nuança que esses pólos ideológicos comportam entre si.
Note-se que diante da onda de denúncias de corrupção que varre o País, arrastando consigo culpados e inocentes, e que atinge com força o setor público, os discursos desta campanha são de cunho moralizante, sem quase nenhum apelo à ideologia. A tônica da retórica repousa sobre o valor da honestidade, colocado com ênfase diante do desconfiado e escaldado eleitorado que tenta distinguir através da homogeneidade do pensamento político algo que traga a identificação com determinado candidato.
Na verdade, a maioria dos eleitores brasileiros (como de resto a maioria dos eleitores em todo o mundo) estão longe de ter um pensamento ideológico preciso que facilite suas escolhas políticas através de quem professe o mesmo modo de raciocínio. E tanto ricos quanto pobres costumam ser extremamente práticos, votando no candidato que melhores vantagens possa lhes trazer. Mesmo porque, como já assinalei anteriormente no meu livro ‘‘O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto - a Ética da Malandragem’’, nossos partidos políticos não passam de meros clubes de interesses e os candidatos, que geralmente migram constantemente de um partido para outro, limitam-se durante as campanhas eleitorais a mercadejar utilidades, esperanças e ilusões.
E assim sendo, o eleitor, conforme analisa Anthony Downs em ‘‘An Economic Theory of Democracy’’, ‘‘procura na política a máxima utilidade, como o consumidor na economia’’. O economista afirma ainda, tomando como analogia o modelo de trocas de bens e serviços numa economia de mercado, que ‘‘no mercado eleitoral, os partidos propõem seus serviços aos eleitores e rivalizam entre si para obterem votos’’.
No nosso caso, mais que os partidos, esses amontoados confusos de ânsias individuais pelo poder, são os candidatos que se apresentam no ‘‘mercado eleitoral’’, onde pouco adiantam princípios ou ideologias, valendo apenas a capacidade de persuasão de acordo com a ‘‘estrutura do eleitorado’’.
Com certeza por causa disso, o discurso da direita é tão parecido com o da esquerda. Aí está também uma explicação razoável para a personalização do poder. As pessoas dizem preferir votar no candidato e não no partido.
Quanto aos mais pobres, pode-se afirmar sem medo de erro, que o indivíduo pobre quando vota não o faz exclusivamente por dinheiro ou demais favores. No líder ele busca o prazer da identidade, da igualdade, da desforra. Some-se a isso a imagem do ‘‘igual’’ que é capaz de lhe dar proteção e a democracia tropical estará completa.
Quando o voto é dado a esse tipo de candidato, não se pode dizer que se trata de um voto inconsciente. É bem consciente. Está de acordo com os desejos e aspirações de quem deu e com nosso peculiar contexto cultural, social e econômico. Isso significa porém, que não existe uma ‘‘consciência proletária’’ como gostaria a esquerda. Tampouco temos um ‘‘povo guerreiro’’, conforme a letra da música daquela Copa do Mundo em que perdemos para os franceses e a Argentina se sagrou campeã. Diante dessa realidade, os militantes de partidos mais radicais de esquerda ou os românticos ideológicos, costumam se desesperar, como um dos meus alunos que afirmou em sala de aula há alguns anos atrás: ‘‘Nosso povo é debilóide.’’ No que ele estava redondamente enganado.
Inversamente, existem intelectuais das mais variadas gradações esquerdistas que enaltecem a participação popular na política, vendo atos revolucionários inexistentes, não admitindo jamais a comparação com outros povos que possuem uma consciência cívica mais evoluída do que a nossa. E aos analistas brasileiros que não comungam com os mesmos ideais, os epítetos atribuídos pelos ‘‘engajados’’ podem ser os de ‘‘direitista’’, ‘‘conservador’’, ‘‘liberal’’, ‘‘americanófilo’’ etc., todos, é claro, carregados de sentido tão pejorativo quanto o de ‘‘comunista’’ que em anos passados repercutia como xingamento dos mais pesados.
Isso significa que no círculo intelectual brasileiro não há muito espaço para os realistas que se movem entre a miragem e o desespero por onde oscilam os do seu meio, principalmente depois da queda do Muro de Berlim e do fim do Império Soviético, acontecimentos que encerraram a aventura da utopia marxista no mundo.
De todo modo, o que se pode dizer é que as ideologias na realidade atual se deslocaram do seu habitat por excelência, a política, para se concentrarem cada vez mais no seu outro terreno privilegiado, o dos intelectuais, que por hábito, estilo ou influência grupal se declaram na sua maior parte como sendo de esquerda. Esses indivíduos que normalmente se crêem destinados a uma missão sagrada e redentora, estão entrincheirados em instituições de imensa capacidade de controle social como a imprensa, as igrejas (especialmente a católica), as universidades e, de forma surpreendente e atualizada, em estâncias do Poder Judiciário conforme ilustra a figura do promotor federal de grande destaque atual na mídia, Luiz Francisco de Souza.
Assim, vemos uma maioria bastante pragmática que acredita no que existe, e uma minoria ideologizada que professa uma profunda fé no que virá. Até agora prevaleceu a maioria, como provaram as derrotas de Lula em três eleições presidenciais. Afinal, conforme escreveu Paulo Francis sobre operários, ‘‘estes querem mesmo é se integrar na sociedade de consumo, ter empregos, boa vida etc. Não lhes passa pela cabeça coisas como o socialismo. Todos os líderes bolcheviques sabiam disso muito bem’’.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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