Onde está o paradoxo? - Jorge Gregory
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 25 de janeiro de 1999
Jorge Gregory 
Foi com surpresa que li na coluna do colega Luiz Geraldo Mazza, no dia 15, a nota intitulada Paradoxo. O colunista, para sustentar seus pontos de vista a respeito da universidade pública e gratuita, e mais especificamente da Universidade Federal do Paraná (UFPR), afirma: Um levantamento recente dentre os aprovados, porque é isso é o que realmente conta, mostrou que a esmagadora maioria dos alunos se origina de famílias com renda entre R$ 2 mil e R$ 3 mil, o que está longe de caracterizá-los como integrantes dos nichos de pobreza que o discurso demagógico sugere o mais atendido.
Primeiro é necessário que se esclareçam os números, visto que o levantamento a que se refere o jornalista foi divulgado por esta assessoria. Entre os dados fornecidos à imprensa detalhamos a renda familiar dos 3.638 aprovados da seguinte forma: oito aprovados com renda abaixo de R$ 130 (0,21%), 203 entre R$ 131 a R$ 500,00 (5,58%), 571 entre R$ 501 a R 1 mil (15,69%), 542 entre R$ 1 mil a R$ 1,5 mil (14,90%), 538 entre R$ 1,5 mil a R$ 2 mil (14,79%), 659 entre R$ 2 mil a R$ 3 mil (18,12%), 382 entre R$ 3 mil e R$ 4 mil (10,50%), 285 entre R$ 4 mil e R$ 5 mil (7,84%) e 435 acima de R$ 5 mil (11,96%).
A esmagadora maioria a que se refere a nota corresponde a 18,12% dos aprovados. Tal percentual, embora esclarecedor sobre a distorção da nota, colocado de forma isolada ainda pouco diria ao leitor. Uma análise mais detalhada destes números mostra que 51,19% destes estudantes possuem renda familiar inferior a R$ 2 mil. Considerando-se que a mensalidade de um curso de Engenharia, Medicina, Odontologia entre outros, está em torno de R$ 1 mil e que os custos de formação para o próprio estudante transcendem o pagamento da mensalidade, poderíamos com absoluta segurança afirmar que o ensino público e gratuito é a única possibilidade de formação superior para esta parcela de estudantes.
Outros dados apresentados pelo levantamento demonstram ainda a importância social que a UFPR, enquanto universidade pública e gratuita, desempenha em nossa sociedade: 75,32% dos aprovados são oriundos de Curitiba e Região Metropolitana e 10,67% do interior do Estado; 31,97% cursaram integralmente o ensino médio em escolas públicas (um dado bastante significativo tendo em vista as desigualdades sociais e a restrita oferta de vagas para o ensino superior); 34,33% não fizeram cursinhos e 27,33% o fizeram por menos de um semestre.
Não quero afirmar com isto que ocorra uma absoluta justiça social nas universidades públicas. Pelo contrário, o acesso à universidade ainda é privilégio de poucos. A injustiça social, porém, não é produto da universidade. Suas raízes são estruturais e estão na base da própria sociedade.
A questão que nos está colocada é como reduzir a níveis aceitáveis tais desigualdades, já que está fora de nosso alcance transformar a sociedade de forma unilateral. Um excelente indicativo está apontado pelos aprovados: 30,76% optaram pela UFPR por oferecer o melhor curso pretendido e 58,25% por se tratar de universidade pública e gratuita. Ou seja, a grande maioria, independentemente de suas condições econômicas, faz a opção pela universidade pública porque esta oferece melhor qualidade de ensino que as particulares. Tal condição é taxativamente reconhecida pelo colunista quando afirma: E o pobre tem que se virar em escolas caríssimas e a maioria delas de qualidade discutível.
Poderíamos aqui estabelecer um raciocínio bastante simples: se o ensino superior privado oferecesse a mesma qualidade que o ensino público e gratuito, o mais bem aquinhoado optaria pela escola paga, livrando-se da enorme concorrência existente pelas escassas vagas gratuitas. Portanto, me parece lógico que aqueles que de fato estão preocupados com a justiça social, ao contrário de ficarem atacando raivosamente o ensino público e gratuito, deveriam estar questionando a qualidade das escolas privadas e a política governamental de incentivos (inclusive financeiros) a esta modalidade de ensino.
Parece-me um contra-senso que certos formadores de opinião, mesmo reconhecendo o fato de que a ampla maioria daqueles que pretendem ingressar no ensino superior não possui condições de arcar com os custos de uma escola privada, colocam como alvo principal de ataque exatamente a gratuidade do ensino. Extinto o ensino gratuito, como pretende o Banco Mundial, a maioria dos novos estudantes da UFPR, como demonstram os dados acima, estaria alijada do direito de acesso ao ensino superior.
Por fim, devemos reconhecer que também o ensino superior público deve dar respostas à sociedade para que se possa afirmar que efetivamente estejamos promovendo a justiça social. Entre elas podemos destacar como ações urgentes a serem implementadas: ampliação do número de vagas, abertura de novos cursos, implantação do ensino à distância na graduação e diversificação das formas de acesso ao ensino superior. Questões estas que estão no centro das discussões da atual gestão da UFPR e já deverão apresentar novidades para o próximo ano.


