Onda de consumo ou baixa produção?
A semana que começa promete mais informações - e muita especulação - sobre escassez de alguns produtos causada pela onda de consumo. Pelo menos um item da construção civil, o tijolo, e certas marcas de cerveja já estariam se escasseando. A ausência deles fora diagnosticada na semana passada. Não é um fator sazonal; é aumento de compras, segundo órgãos de pesquisa. O comércio no interior, nega a falta, e diz que isto só ocorre nos grandes centros. A reposição de estoque nem sempre é rápida, principalmemte quando se trata de bens de consumo duráveis.
A lei da oferta e da procura, legítimo regulador de mercado, pode se transformar em vetor de instabilidade que comprometa o abastecimento de um determinado produto ou serviço. Se todas as famílias de um certo bairro carente, movidas por estímulo de ofertas ou ganho salarial, decidirem trocar a geladeira ou comprar um televisor novo, é provável que os estoques de todas as lojas da cidade não serão suficientes para atender a demanda. Nesse caso, a lei da oferta e da procura conspira contra o equilíbrio da economia porque tende a elevar os preços. Elementar. A indústria não trabalha com estoques suficientes - que em commodities denomina-se estoque de passagem ou carry over.
A pergunta é: Isto é fato ou não passa de golpe publicitário do governo para dizer que o poder de compras da classe média aumentou tanto que ''está faltando de tudo''? Segundo agências de notícias, sexta-feira, fabricantes de reboques e semirreboques para transporte rodoviário de carga estavam com os pátios cheios de carretas prontas que não podem ser entregues por falta de pneus. Na Zona Franca de Manaus, as indústrias de televisores e de celulares não conseguem cumprir os prazos de entrega ao varejo por falta de componentes importados. As mercadorias ficam paradas por cerca de nove dias à espera de liberação nos terminais de cargas do aeroporto da cidade, cuja infraestrutura é insuficiente para administrar o aumento no fluxo de cargas, que triplicou nos últimos meses.
A preocupação agora deve ser com produtos que exercem influência direta no abastecimento e na inflação. Se isso acontecer, a ação tem que ser imediata sob pena da retomada da espiral inflacionária, com um produto puxando o outro, tipo efeito dominó. Dois pontos nevrálgicos da questão: demanda reprimida e oportunismo especulativo. O governo deve tranquilizar o mercado. A ameaça não é a escassez, mas uma alta sem controle no segundo semestre.





