Omitir-se. Essa é a violência mais comum que pais têm cometido contra filhos atualmente, de acordo com o professor de História e Geografia há mais de duas décadas Wladmir Gonzalez. Nos últimos seis anos, ele tem pesquisado sobre violência doméstica e sua manifestação nas escolas.
''Antes a agressão física era o principal tipo de violência doméstica. Atualmente percebemos que é o abandono, que acontece quando a família se omite em relação à educação da criança. Não é só a questão de abandonar a criança numa maternidade. É ter o filho e não ter responsabilidade com essa criança'', afirma.
Segundo Gonzalez, que nesta semana deu uma palestra sobre o assunto no XV Encontro Pedagógico do Sistema Maxi de Ensino, a impunidade ainda reina para casos de violência doméstica, principalmente por falta de denúncia. ''O medo da família, comunidade ou escola denunciar a violência doméstica é um dos maiores problemas que enfrentamos nesse país'', disparou.
O professor Marcos Miniuchi, que foi curador durante dez anos da Vara da Infância de Juventude em São Paulo, também trabalha com Gonzalez. ''Trabalhamos em escolas de periferia, e percebemos isso (violência doméstica no dia a dia). Foi o que nos levou a abraçar a causa. Mas não acontece só na escola pública. Tem muitos casos em escola particular. Violência doméstica não tem classe social'', disse Gonzalez.
Ele aponta que a escola tem papel fundamental para identificar e denunciar casos de violência doméstica contra crianças e adolescentes. ''Dentro do sistema educacional tem que haver uma parceria entre a comunidade e a escola, justamente na questão de levantar denúncias em relação à violência doméstica'', cobra.
O que caracteriza a violência doméstica?
Existem vários tipos de violência doméstica. Entre elas a violência física, que é a agressão contra a criança desde um tapa até fraturas, que podem ser causadas por chacoalhões em recém-nascidos, por exemplo. A violência psicológica é caracterizada por agressões verbais. Há também a violência sexual.
Nem sempre a violência doméstica é realizada pelos pais. Pode ser a babá ou o tio. Até algum tempo atrás a violência física era a principal. Hoje é o abandono.
O senhor poderia explicar melhor o que é classificado como abandono?
Tenho um filho e não me importo com ele. Não dou a menor condição para que ele possa se desenvolver em sociedade. Eu deixo meu filho largado. Não dou assessoria, não dou um apoio psicológico, orientação. A família se omite em relação à educação da criança. Não é só a questão de abandonar a criança numa maternidade. É você ter o filho e não ter responsabilidade com essa criança.
Seria o caso de pais que só se preocupam com trabalho?
Exatamente. Você põe a criança no mundo e a deixa largada. Ela não tem a quem recorrer, uma pessoa que possa orientá-la. Muitas vezes as famílias acham que a escola deve ocupar esse papel. Mas a escola vai até um limite e a partir daí a família tem que assumir.
Qual a principal causa da violência doméstica?
Ela acontece principalmente no meio urbano, mas não existe uma causa específica. São vários fatores que geram a violência. O alcoolismo é um deles. Um desejo sexual exacerbado por parte dos pais também. Uma má-formação do pai ou família em relação a características morais e éticas. Existem agressões verbais que o pai sofreu quando era criança e passa para o filho. Por exemplo, o pai e a mãe foram muito humilhados na infância e acabam transferindo para o filho. Acontece também a não aceitação da mãe com criança, uma depressão pós-parto.
A questão do abandono está muito ligada à estrutura econômica. A necessidade que a mulher tem de sair para o mercado de trabalho, o marido já trabalha, e não oferece para criança uma estrutura.
Quais são as principais consequências da violência doméstica?
O caso do Rio de Janeiro, que um jovem pegou uma arma e tirou as vidas de muitas pessoas (Wellington Menezes de Oliveira matou 12 crianças numa escola do bairro Realengo em abril de 2011). Ele foi vítima de preconceito, de violência doméstica. Em São Caetano do Sul (SP), há pouco tempo, em uma escola considerada modelo na região, uma criança atirou no professor e se matou. Na internet há inúmeros casos de professores agredidos por alunos. Muitos são resultados, reflexos, da própria violência doméstica.
A violência interfere na formação do indivíduo na questão do respeito, ética, moral. Ele perde os pârametros, os limites. Não consegue entender o sentido desses valores e aí as coisas estouram na escola. Aluno agride professor. Aluno agride aluno.
Existe punição para o abandono?
A partir do momento em que há denúncia de abandono os pais podem perder a guarda do filho.
Há impunidade para violência doméstica, até mesmo pela falta de denúncia?
Existe, com certeza. Muitas vezes (não se denuncia) por questões políticas. Qual posição social a pessoa (que comete violência doméstica) exerce na sociedade? Qual sua influência? Qual a repercussão de uma denúncia que, por exemplo, caia na mídia? Se for alguém público pior ainda.
A impunidade acontece também até por conta do próprio despreparo do governo em lidar com a situação, do despreparo dos orgãos competentes.
Quais são esses órgãos?
O conselho tutelar. O próprio Estatuto da Criança e do Adolescente, que na teoria é uma coisa, mas na prática é outra. Muitas escolas tentam mascarar a situação (violência doméstica). Não quer perder o aluno, no caso de escola particular. Então o que acontece muitaz vezes? O coordenador ou diretor mascara a situação com uma conversa com o pai e tenta não gerar mal-estar. Então o pai acaba tirando o filho da escola e desconta na própria criança. Transfere a criança de unidade escolar e as agressões continuam da mesma forma. É crime quando um órgão público, como um hospital ou uma escola, se omite em relação a um caso de violência doméstica.
Existe uma linha tênue na relação entre escola e família e muitas vezes não fica claro. Dentro do sistema educacional tem que haver uma parceria entre a comunidade e a escola, justamente na questão de levantar denúncias em relação à violência doméstica. Enquanto a escola não perceber que é responsável por aquele adolescente que está na sala, a situação fica difícil de combater.
O medo da família, comunidade ou escola de denunciar é um dos maiores problemas no País. Chegou o momento de pais, professores e educadores descobrirem a verdadeira responsabilidade diante desse fato e assumir.
Normalmente quem denuncia?
Grande parte são denúncias anônimas. Mas partem de pessoas próximas: vizinhos, familiares ou até mesmo de um colega de escola.

Ouça trechos da entrevista:

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