Olhos azuis em alta
Quando a candidata do PT Marta Matarazzo Suplicy ganhou as eleições em São Paulo, muito se ouviu falar de seus olhos azuis. E mais escutei comentar sobre isso do que, por exemplo, sua capacidade ou incapacidade de governar a mais importante cidade do País. Um dos meus colegas de universidade chegou a me segredar que queria morar em São Paulo só para votar na bela Marta, o que é romântico mas reduz a muito pouco os atributos que podem e devem ser encontrados tanto em homens quanto mulheres que assumem cargos públicos como inteligência, tino administrativo, honestidade, pulso firme e visão de bem comum. Afinal, não se tratava de um concurso de miss.
Não sei o que dirão sobre isso as feministas (e não sou uma delas), mas ao que parece, não só mulheres votam em candidatos porque são charmosos e bonitos, como homens também ficam envolvidos pela beleza de uma candidata, apostando nos seus dotes físicos como pré-requisito para bem governar.
Outro par de olhos azuis que levaram a melhor foram os de Hillary Clinton, a superstar da eleição americana. No seu caso, com toda probalidade, os 58% dos eleitores de Nova York que a escolheram para representá-los no próximo Congresso americano não fizeram isso apenas por causa dos seus belos olhos. Depois de passar o diabo com as traições do marido presidente e sofrer uma série de acusações dos que visavam denegri-la, Hillary deu nesta eleição uma demonstração de força e capacidade. Segundo o jornal The New York Times, se Al Gore perder as eleições, ela se transformará na figura mais importante do Partido Democrata. Provavelmente, já é. De todo modo, seus olhos azuis onde lampejam chamas do poder não deixam de chamar a atenção em todo o mundo.
E basta abrir uma revista para encontrar a seguinte referência, feita a uma neta de Charlie Chaplin, de nome Kiera, que aparece numa foto provocante: Os penetrantes olhos azuis e a face meio angelical, meio diabólica já seriam suficientes para fazer da moça aí ao lado uma modelo de sucesso.
Mas a coisa não pára por aí. No importante e sério jornal O Estado de S. Paulo do último dia 15, Frei Beto defende uma revolucionária italiana começando pela descrição de seus olhos: Sílvia Baraldini tem olhos de água marinha, 53 anos, e traz sobre os ombros o peso da sentença dos tribunais dos Estados Unidos, que a condenaram a 43 anos de prisão.
Mais adiante o irmão leigo Beto, que se indigna e com razão, ao lembrar de que nunca viu uma aluna negra merecer o papel de Nossa Senhora nas coroações do mês de maio, sucumbe de novo às águas-marinhas de Sílvia, rendendo-lhes uma homenagem poética, se bem que de rima duvidosa: Os olhos azuis de Sílvia Baraldini sinalizam a esperança num mundo em que as diferenças não farão divergência.
Como para se penitenciar de tanta admiração pelo azul, o bom frei faz uma alusão hipotética à cor escura dos cabelos e dos olhos de Jesus, como se tivesse usufruído da convivência do Mestre em tempos idos na Palestina: Jesus, certamente, não era louro nem tinha olhos claros, como aparece na maioria das estampas. Logo em seguida coroa sua dedução com uma indubitável postura anti-semita: Era judeu e palestino um oportuno paradigma diante dos sofrimentos que a política anexionista do Estado de Israel impõe aos palestinos.
Mas se de fato Jesus era judeu, de que lado estaria hoje? Do seu povo, os descendentes de Isaac, ou dos seu primos, descendentes de Ismael? Acostumado a falar em nome do povo brasileiro, o frei falou em nome de Jesus, inferindo até a cor de seus cabelos e olhos, o que aliás nenhum cristão da atualidade sabe realmente como eram.
Mas para se fazer justiça ao dominicano, pode-se dizer que não há nada de estranho no seu desgosto pelos judeus. Afinal, se Beto é admirador declarado de um judeu anti-semita que se chamou Karl Marx, deve saber de cor a lição de preconceito explícito que este deu ao se referir aos seus em A questão Judaica: Qual o fundamento secular do judaísmo? A necessidade prática, o interesse egoísta. Qual o culto secular praticado pelo judeu? A usura. Qual o seu deus secular? O dinheiro. Nesse virulento ataque está subjacente o combate ao sistema capitalista por parte do seu maior contendor, pois afirmará Marx na mesma obra: A sociedade burguesa engendra constantemente o judeu em suas entranhas. Judaísmo e capitalismo, eis dois fenômenos diabólicos e heréticos, que devem ser condenados eternamente às chamas das fogueiras da Moderna Santa Inquisição, que também está na moda.
De todo modo, entre os olhos azuis de Sílvia e a suposta cor tisnada de Jesus, Frei Beto transmite sua ideologia, atingindo em cheio a pátria do capitalismo, que por sinal vai muito bem obrigado. Afinal, estes yankees desalmados condenaram a bela, branca e bem-nascida (parece até a Marta Matarazzo Suplicy) antropóloga italiana por coisinhas de nada, tais como estas indicadas sumariamente pelo piedoso frei: vinculação ao Movimento Panteras Negras (até aí nada de mais), engajamento no Movimento 19 de Maio (data do aniversário de Ho Chi Minh e Malcon X), assalto a banco (segundo o frei, esse processo foi arquivado e Sílvia absolvida), colaboração com a fuga de Assata Shakur, líder do Movimento 19 de Maio (que hoje vive em Cuba, numa boa).
Mas dá para compreender o entusiasmo do Frei Beto por essa trajetória bastante eletrizante de uma revolucionária de esquerda, sobretudo se contrastada com a história de vida dos nossos revolucionários boas-vidas. Dá também para entender seu visível entusiasmo pela cor azul. Só não consigo atinar por que olhos azuis e senhoras de mais de 50 anos estão em alta. Mas de certo modo, isso me dá uma agradável sensação.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é escritora em Londrina
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