Qualquer negociação entre partidos, políticos e lideranças a respeito do pleito presidencial de 2002 só terá significação e peso se for aprovada pela vontade da sociedade. Serão ineficazes as alianças entre caciques e poderosos se não contarem com o apoio daqueles milhões de votinhos despejados nas urnas. Isso é óbvio, mas nem sempre o óbvio aparece na mesa de análises em nosso País. Muita gente vende mercadoria que não pode entregar para comprador que não tem dinheiro para pagar. O blefe é uma das maiores características desses nossos tempos de política profissionalizada.
Pois bem, o maior eleitor de 2002 tem o carinhoso nome de PIBI. Isso mesmo: Produto Interno Bruto da Infelicidade. Se o PIBI crescer muito, a probabilidade de ele votar num candidato oposicionista é enorme. Se diminuir e permanecer tão curto quanto a extensão de suas quatro letras, é muito provável que vejamos sentado na cadeira do Palácio do Planalto o candidato patrocinado pela aliança governista. E os nomes da oposição ou situação com melhores possibilidades serão aqueles cujas cabeças melhor se adaptarem ao travesseiro social. Já temos, portanto, uma primeira medição da situação. Mas o que vem a ser esse tão fenomenal PIBI?
O Produto Interno Bruto da Infelicidade é a somatória das demandas sociais do País. Entram em sua composição a insatisfação com a questão da violência desmesurada, da criminalidade galopante; as raivas dos cidadãos quando enfrentam filas nos postos de saúde; a ausência de vagas nas escolas para os filhos ou mesmo a distância entre a escola e a casa; os ônibus superlotados, cheios de angústia, cansaço e suor; as filas do desemprego, que somam milhares de quilômetros por toda a federação; os serviços públicos péssimos; as promessas não cumpridas de melhoria nos serviços privados (as lembrancinhas dos congestionamentos dos celulares, por exemplo); a falta de alguns trocados para aumentar a cesta básica; o trânsito caótico das capitais e médias cidades; enfim, uma indisposição geral, que é fruto da sensação de que o sorriso é contido, a gargalhada não jorra alegria e de que há uma dorzinha lerda, porém intermitente, fustigando o corpo, que não se sabe de onde vem, para onde vai ou quando vai acabar. (Quem já teve dor de cálculo renal sabe mais ou menos como é que é.)
O PIBI é isso e muita coisa mais. O mais fica por conta das infelicidades pessoais e grupais, que se formam em ondas, e que, de maneira centrífuga e centrípeta (das classes médias para as classes mais pobres e vice-versa), vão se encadeando para formatar o grande colchão social do País. O tamanho do colchão com sua espessura e tipo de tecido determinará a qualidade do sono. As noites bem ou maldormidas, os dias bem ou mal vividos, os sucessos e insucessos, acionam a maquinaria psicológica dos cidadãos, aumentando ou diminuindo a infelicidade geral.
Resta aduzir que há uma pessoa capaz de calibrar o tamanho do PIBI. Ele é o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, que, com o poder da caneta, e os bilhões da moeda estável, poderá colocar muita água no gigantesco caldeirão social, aliviando tensões, melhorando o nível de vida dos contingentes mais pobres, recarregando as baterias de confiança das classes médias, com menos impostos e menor pressão do Estado-monetário sobre o cotidiano dos cidadãos. Quanto custará isso? Inflação. Ora, se um pouquinho dela aparecer para maior felicidade geral da Nação, que venha.
Ao lado dessa injeção na qualidade de vida das pessoas, o presidente poderá trabalhar para melhorar sua própria relação com a sociedade. A começar pela desplanaltização do governo. A administração federal está isolada em Brasília. Fernando Henrique, que gosta muito de viajar pelo mundo, há que correr o País, com seus ministros, vendo as realidades, ouvindo as demandas, e ajudando os estados nas áreas e setores em que se justifica a presença do governo federal.
Há um hiato enorme entre o Palácio do Planalto e a sociedade. E esse buraco pode ser ocupado com ações, eventos, programas, projetos, dentro de uma estratégia de articulação social combinada com as entidades da sociedade civil. Há grandes espaços a serem ocupados. A juventude, por exemplo, está amorfa e dispersa. Sua República se confina cada vez mais às drogas, aos lazeres das casas noturnas e à filosofia dos shopping centers. Não se arregimenta em torno de um grande projeto nacional. Até porque não se entusiasma com a demagogia. Mas pode ser envolvida em um projeto sério, de magnitude, em parceria com as organizações sociais. A energização social aumentará as taxas de engajamento, participação e civismo, valores que sedimentam a cidadania.
O PIBI agradecerá de todo o coração se alguma coisa for feita para ele diminuir de tamanho.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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