Você, caro leitor, já parou para pensar nos seus pés hoje? Qual tipo de calçado costuma usar? Os pés são a parte do corpo que mais sofre no dia-a-dia. Até mesmo pelo fato de andarmos eretos. As gigantes do segmento oferecem tênis com molas, bolhas de ar, levíssimos - o mais leve, lançado na última semana, pesa 99 gramas - e o que há de mais moderno em sistema de absorção. Mas o que comprar? O ortopedista londrinense Áureo Cinegawa diz que os apelos de mercado devem vir em último lugar, quando se trata do calçado ideal. O conforto fala mais alto. Cinegawa exemplificou, contextualizou e, de quebra, deu o bom exemplo: ficou de pé, durante toda a conversa.

Antes de comprar um calçado, o que levar em conta?
Em primeiro lugar, devemos considerar o pé como uma estrutura estática e dinâmica. A maior atividade física do ser humano é ficar em pé, ou seja, em posição vertical, lutando contra a gravidade e se apoiando sobre os pés. No reino animal, por exemplo, o elefante, com suas patas, é mais ''descansado''. O mesmo vale para os macacos quando descem das árvores. No que se refere ao ser humano, o pé não deve ser olhado como uma estrutura rígida e sim como uma estrutura com vários músculos e ligamentos que permitem a absorção de impactos e propulsão. O índio, como ser humano, por exemplo, não tem problemas de pé.

É por estarmos na era do concreto, não?
Com a urbanização, andamos em cima de pedras, não podemos falar contra. Aí que entra a interface, que é o calçado. O que observo, em muitos de meus pacientes, é a dificuldade do sujeito ter domínio sobre os movimentos dos pés, que tendem a ficar mais estáticos dentro de calçados e as pessoas não tendo a habilidade de movimentar os dedos.

Qual é o calçado ideal?
O calçado ideal tem de facilitar a interposição, facilitando e não danificando a função do pé. Rigidez, absorção e mobilidade são três das características que considero essenciais, quando se fala em calçado. Deve-se avaliar, também, a atividade desempenhada pelo paciente. Cada atividade requer um tipo de calçado adequado.

Então, salto alto e chuteiras, para ''estar na moda'', nem pensar?
Não sou contra o salto alto ou demais calçados, desde que usados numa ocasião ou situação que requeira tais acessórios, esporadicamente. Para tudo há seu momento. Agora, para as funções do dia-a-dia, o correto é aquele calçado que permita ao pé reproduzir movimentos em sua posição funcional: calcanhar no chão e dedos mais soltos. Uma dica que dou é que a pessoa, antes de comprar o sapato, ponha o calçado ao lado de seu pé. O calçado tem que necessariamente ser maior do que os pés, na comparação.

Mito ou verdade: mais caro é melhor?
De maneira alguma. O que digo sempre a meus pacientes: cuidado com os modismos e os preços. O mais caro tem toda uma tecnologia por trás, um investimento de mercado e um apelo, mas encontram-se calçados bons por menos de R$ 500, R$ 700. Não é o preço que define a qualidade.

Além de um bom calçado, alguma dica de exercício para mantermos os pés ''em dia''?
Em primeiro lugar, perder aquela idéia de colocar o sapato de manhã e só retirá-lo antes de dormir. Acredito que, hoje, muitos não conseguem nem andar descalços em um gramado. Minha sugestão: ande descalço, coloque um chinelo, procure alongar, praticar exercícios físicos. Precisa-se recuperar a sensibilidade dos pés. Uma analogia: imagine se tivéssemos as mãos presas por uma luva. Será que teríamos tanta habilidade nas mãos? Por outro lado, admiramos tanto quando uma pessoa que perdeu a mão desenvolve seu trabalho com os pés, sua arte. Desenhar ou escrever com os pés não é uma competência apenas de quem não tem mãos. É preciso se lembrar dos pés.

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