Walmor Macarini
‘‘Não vai ser fácil’’, disse a este jornal José Cândido Sotto Maior, o Candinho, auxiliar-técnico de Wanderley Luxemburgo, referindo-se aos jogos que a Seleção Sub-23 de Futebol terá, em Londrina, pelo Torneio Pré-Olímpico. ‘‘As dificuldades serão grandes’’, afirmou, alertando que ‘‘os torcedores não devem se iludir com a suposta facilidade de vitória’’. E declarou ainda: ‘‘Temos só 20% de chance de classificação’’. E se não bastasse, continuou: ‘‘Está ultrapassada a idéia de que o Brasil pode vencer (os adversários) com facilidade’’. E mais não disse de negativo, porque não lhe foi perguntado.
O técnico titular esconde o jogo tático, treinando com os portões do estádio fechados, e o técnico auxiliar abre o jogo deixando escancarado um suposto ponto fraco da Seleção: que ela está com medo. É o que se depreende, ante tanto negativismo.
Isto que diz Candinho não é uma realidade, nem ele está demonstrando ser ‘‘apenas realista’’ como os ‘‘realistas’’ costumam dizer quando fazem afirmações alarmistas. É, sim, falta de confiança, falta de fé, e ele, ao fazer tais afirmações, irradia isto sobre os seus comandados.
Como poderá o técnico-auxiliar dizer ao jogador ‘‘vai que dᒒ, nos treinos, e no próprio jogo, se agora afirma que não é fácil?! Será o mesmo que dizer ao jogador, na hora da iminência do gol, ‘‘vai, mas não é fácil’’; ‘‘vai, mas a chance é só de 20%’’...
Se o dirigente decreta que não é fácil, então os jogadores acharão que de fato não é; se diz que ‘‘as dificuldades são grandes’’, então os jogadores entrarão em campo com muito temor das dificuldades.
Olha o poder da palavra, Candinho! Afirmar uma coisa é meio caminho andado para convertê-la em realidade. Supõe o treinador, certamente, que ao afirmar que não é fácil, esteja afastando o jogador da idéia de que é fácil, e que o jogador achando que é fácil vai amolecer o corpo e deixar de jogar bem e de fazer gol. Ora, antes pelo contrário: acreditando, com convicção, que é fácil, o jogador se encherá de tanta fé e tanta confiança que o jogo será fácil. Já jogar achando que é difícil, aí até a bola é capaz de ficar quadrada...
O jogador, e por extensão a torcida, devem ser incentivados a crer que vai dar, não o contrário! ‘‘Vai que dá!’’, não é assim que grita a torcida, quando o atacante dispara naquela obstinação em direção ao gol, cheio de força e de garra?! Imagine-se tentar detê-lo num momento destes com um ‘‘vai, Ronaldinho, mas não é fácil’’... Seria até ridículo imaginar a torcida gritando estas coisas. Mas os técnicos, auxiliares-técnicos e dirigentes dizem. Não só os da Seleção, mas de todos os times. É só ter um jogo, qualquer jogo, que o que se ouve é que ‘‘não vai ser fácil’’, que ‘‘vamos ao menos buscar um empate’’, quando o que se tem que buscar é vitória... Isto não significa que não se pode perder, que é inconcebível perder. Não é isto. O que não se pode é disseminar negativismo, porque a palavra tem um forte poder criador, e conforme a carga de emoção que se dá ao proferi-la, tem o poder do raio. A palavra tanto edifica como destrói. E quando parte de um dirigente, de um líder, tem poder ainda maior, porque mais ouvida, porque se dá a ela mais peso, dá valor. E o atleta, movido por tais palavras de negativismo, entra no páreo impregnado de idéias de dificuldade, contaminado pelas palavras que lhe insuflam nos ouvidos, ou que ele lê, que estão em sua mente ou no seu subconsciente.
Se a cabeça – entenda-se a mente – não chuta bem, os pés também não. Em futebol, cabeça não apenas cabeceia; cabeça sobretudo chuta!
Afirmar que não é fácil é uma forma egoísta de preparar o espírito, de quem observa, para a idéia de que, se houver vitória, terá sido um mérito fantástico; que o esperado era uma derrota, então tudo o que vier de melhor será lucro... Ora, isto é já entrar derrotado em campo. Todos sabem que se há um jogo, ele vai exigir esforço; que os adversários jogam com idênticas possibilidades, ou não estariam na parada. Então não será preciso que os dirigentes digam, o torcedor sabe. Mas afirmar, cria. Tem o poder de um decreto.
‘‘Vira esta boca pra lᒒ! Não é assim que dizemos quando alguém fica buzinando mau agouro em nossas orelhas? E se reagimos, é porque temos um natural instinto de defesa diante dos negativismos verbais.
Então, Candinho, com todo respeito, vira esta boca pra lá!
Vimos agora, no jogo de classificação da Seleção masculina de vôlei, para as mesmas Olimpíadas, que o grande craque, definidor da partida, foi um reserva. Ele deve ter achado que era fácil, e os seus saques e jogadas resultaram fáceis. É que os saques estavam na cabeça, as mãos eram apenas o instrumento para executar o que a cabeça havia decidido.
Fácil não deve significar facilitação, no sentido de descuido, negligência. Fácil deve significar crença, fé, convicção, aquela carga de emoção que se dá quando se quer realmente conquistar uma coisa; aquela fé obstinada, porém consciente, que nos impulsiona para a frente com um poder e uma força que nem nós sabemos de onde vem, mas que vem de dentro de nós e nos faz derrubar muralhas e vencer dragões. O que temos que mentalizar e crer e dizer – jogadores, técnicos, dirigentes, torcida – é que vai ser fácil, não com a irresponsabilidade da facilitação, da negligência, do corpo mole, mas com o sentido mais vigoroso do pensamento e da palavra. E aí será fácil.

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